sábado, 29 de junho de 2013

Nick Drake - Bryter Layter (1970)


Foi numa tarde de 84, quando o velho Maraca estaria novamente acordado. A seleção brasileira mediria forças com o selecionado inglês. Os trens do subúrbio e da baixada estavam prontos para prover o Mário Filho de sua força tal qual veias levam sangue ao coração.

Naqueles acessos, nos degraus de concreto, cada nêgo, moleque, senhora respeitável, trabalhador deixava seu suor, lágrimas em rios de emoção. A onda sonora que toma conta daquele gigante de cimento em torno de um campo de futebol a cada vaia derrubava a pose de qualquer grã-fino metido a besta. Era capaz de exaltar com a mesma irracionalidade que renegar infelizes à escuridão. Nelson sabia disso, nem o minuto de silêncio escapava da ira ensurdecedora do poder do gigante. Três horas por semana destinados ao intervalo do cotidiano, do comum, das banalidades.  Três horas para tratar de ser um pouco mais. Dizer tudo o que a si é vetado. Xingar, esgoelar e chorar. Numa tarde de domingo, o Maracanã é um jorro contínuo de emoções.

Da geral à tribuna de honra, o urro do estádio não faz distinção. Ocupando seu lugar na cabine da rádio globo, Nelson Rodrigues se preparava para mais uma jornada esportiva e apontava as primeiras linhas de sua coluna do dia seguinte no jornal.

Nelson conhecia os nuances do gigante desperto somente por sentir seu tremor. Ávido por heróis e vilões, não seria diferente naquela ocasião.

Enquanto isso, num dos vagões do trem que saíra de Santa Cruz, Roberto Silva levava mais que o desejo de participar daquela catarse coletiva ao redor das linhas de cal. Levava consigo um fita k7 com dez músicas, as quais viriam a ser de um antigo Lp que o avô deixara como herança. Não se tratava de nenhum disco com sambas interpretados por Francisco Alves ou Carmen Miranda. Era algo insólito, um artista inglês, introvertido. Chamava-se Nick Drake. nunca tocou para mais de cinquenta pessoas ao mesmo tempo em seu curta carreira que rendeu três álbuns pela Island records. Esse era o pouco que Roberto sabia de seu intrigante ídolo, conhecimento adquirido a duras penas com seu inglês inconstante e por velhas revistas encontradas na feira de sábado da praça XV.

Roberto queria chegar até Nelson Rodrigues, o cronista do imponderável, do sobrenatural de Almeida, para apresentar-lhe seu outro ídolo. Tinha consciência que dessa dialética resultaria na redenção mais inesperada da história do Maracanã.

Com ingresso para a geral, não seria problema chegar até a rampa das arquibancadas, trajeto várias vezes repetido por ele desde a infância quando vendia amendoim torrado. Saiu junto com a multidão na estação de São Cristóvão. Atravessou a passarela e tratou de se esgueirar entre as grades para chegar ao estacionamento e depois aproveitar um portão aberto e sem vigilância para ir à subida da arquibancada.

 Seus problemas começariam ali. Chegou à arquibancada de cimento já repleta. Tentou pular a grade que separava a do setor especial em vão. Do outro lado os alvos burgueses rechaçaram sua tentativa. Não houve maneira, assistiu ao primeiro tempo ouvindo os comentário de Nelson no rádio de pilha de um barrigudo português ao lado. Intervalo de jogo e o anel abaixo da arquibancada é tomado por tipos de todos os credos, raça ou posição política. Roberto viu a chance de espremer-se pela grade entre aberta sem fazer-se notar. Ao passar, viu um segurança que expulsava um colarinho branco bêbado de perto da entrada das cabines de rádio. Dali Roberto não parou mais até deparar-se com a porta da cabine onde estaria Nelson. Era a chance dele , finalmente, pobre suburbano, tirar do mais vil silêncio um poeta que julgava ser o Baudelaire da música dos anos 60.

 As músicas de Bryter Layter estavam ali, na fita, guardando os chiados do vinil original. Roberto mal sabia que o Lp foi presente de um amigo do avô, que fora músico em orquestras de rádio. Esse amigo trabalhava na discoteca da Rádio Mundial e conseguia os discos que sobravam do acervo do Big Boy. O avô de Roberto nunca entendeu as letras, mas compreendia a sutileza e a simplicidade naquele jazz altamente influenciado pelo blues e pelo rock. Passou a paixão ao neto que não se contentou com as melodias suaves e cuidadosamente arranjadas para o piano e saxofone. Estavam ali também a fugacidade do amor em meio ao concreto das cidades e a contemplação ao ritmo industrial da vida.

 Nada mais coerente que, justamente naquele templo, onde homens eram expostos ao escárnio ou ungidos das cinzas, Nick Drake começar a ser redescoberto pelas mãos de alguém inesperado. A porta se escancara na frente de Roberto e sai a figura enrugada e fantasmagórica de Nelson Rodrigues. De supetão, Roberto mostra-lhe a fita, e numa reação automática, põe-se a falar. Nelson deu a última baforada no cigarro, passou a mão no rosto, olhou fixamente nosso jovem mensageiro e diz: "Jovem, envelheça!".

 Em 1984, Nelson já estava morto, Roberto nunca veio a ser e o Maracanã era o maior fabricante de multidões do mundo. Nick Drake e sua música tomaram caminhos menos tortuosos para o tardio estrelado.


   Faixas:
01. Introduction
02. Hazey Jane II
03. At the chime of the city clock
04. One of these things first
05. Hazey Jane I
06. Bryter Layter
07. Fly
08. Poor Boy
09. Northern Sky
10. Sky


Um comentário:

Paulo disse...

Excelente!