domingo, 26 de maio de 2013

Sui Generis - Pequeñas anécdotas sobre las instituciones (1974)

Na Argentina dos anos 70, haviam tantos cabeludos quanto problemas políticos. Em 1974, com a morte de Perón, a situação caminhava para mais um golpe militar. Seria o sexto no século XX. Os enfrentamentos entre forças para-militares e o grupo armado peronista Montoneros sacudiam o país.
Em Buenos Aires, dois amigos se encontram num ônibus a caminho da escola. Era fim de junho e a névoa se juntava ao frio da manhã de inverno. Um deles levava de baixo do casaco o disco que prometera ao colega dias antes. O Rock Argentino fazia a cabeça dos jovens e o Sui-Generis acabava de lançar seu terceiro álbum.

- Veja, Marco! O novo álbum do Sui-Generis. Eles deixaram de ser um dupla. Viraram banda de rock. Rock progressivo, como dizem na Inglaterra.

- Hum, soube disso. Li na Pelo que é o melhor disco deles. Pelas músicas que ouvi na rádio, me pareceu muito bom - disse Marco, um rapaz de 17 anos, cabeludo, conhecido na escola por suas poesias libertárias.

- É algo como o Gênesis - lembrou Ponzio, como era chamado pelos amigos. Também cabeludo, simpatizava com o socialismo e atuava na política secundarista desde os 15.

- Gênesis é um droga. Peter Gabriel salva essa banda do ridículo. Deveria sair em carreira solo e deixar de passar vergonha com o Phil Collins -, respondeu Marco.

- Essa sua implicância com o progressivo.... Ouviu na rádio ontem sobre a apresentação do Sui-Generis em Montevidéu no fim de semana? -, retrucou Ponzio.

- O que houve? Ontem sintonizei nas ondas de uma loira que conheci no encontro dos poetas da praça de maio. -, disse aos risos.

- Malandro! Quando vai me apresentar uma dessas gatinhas? -, cobrou com bom humor.

- Hoje mesmo se quiser! Depois da aula. Mas conta logo!

- Fechado então. A banda foi detida. Os milicos enquadraram eles por tocarem Juan Repressión e Botas Locas. Essas músicas foram censuradas no disco. Tiveram que dar explicações a um juiz. Charly disse que os outros músicos não sabiam de nada e a autoria das músicas era dele.

- Porra, foi macho. Livrou a rapaziada -, interrompeu Marco.

- Então o tal juiz de merda liberou todos. Olha a escola aí!

- Vamos!

Ponzio pôs o Lp novamente sob o casaco. A escola onde os rapazes estudavam era católica, gerida por freis agostinianos muito severos em relação ao comportamento. Mesmo assim, toleravam os rapazes de cabelo longo, desde que estivessem vestidos de forma impecável. As meninas e os meninos só se misturavam no pátio nos horários de recreio. Os encontros da política secundarista só aconteciam fora da escola. As aulas separadas e saias na altura do joelho eram demais para os dois cabeludos. Na volta do recreio, Marco voltou com a boa notícia:

- Ponzi, meu velho! Depois da aula vamos para a casa da Marcinha ouvir o disco. As amigas dela também estão fissuradas na som do Sui Generis.

- Demais, Marco. Vamos aproveitar e estrear aquela bala. Quero ver o som púrpuro saindo daquelas caixas.

- E muito bem acompanhados. Você é um gênio! -, celebrou Ponzio.

No que chegaram à companhia das meninas e a agulha começou a deslizar sobre os mais de quarenta minutos do vinil todas as sensações os fizeram flutuar. Longe e perto ao mesmo tempo, novas inspirações poéticas, políticas e amorosas.

Não havia limites naqueles lindos sonhos delirantes, fora das instituições.

Faixas:
01.Instituciones
02.Tango en Segunda
03.El Show de los Muertos
04.Las Increibles Aventuras del Señor Tijeras
05.Pequeñas Delicias de la Vida Conyugal
06.El Tuerto y los Ciegos
07.Musica de Fondo Para Cualquier Fiesta Animada
08.Tema de Natalio
09.Para Quien Canto Yo Entonces
10.Juan Represión
11.Botas Locas

Músicos:
Charly Garcia - piano, guitarra e voz
Nito Mestre - voz, guitarra, flauta transversa
Rinaldo Rafanelli - baixo, guitarra, voz
Juan Rodriguez - bateria

Convidados:
Alejandro Correa - baixo
Carlos Cutaia - órgão hammond em "tema de natalio"
León Gieco - gaita em "Para quien canto yo entonces"
Maria Rosa Yorios - voz
David Lebón - guitarra
Oscar Moro - bateria
Jorge Pinchevsky - violino em "El tuerto y los ciegos" e "tema de natalio"


A onda que carrega também é a que traz de volta

                                                 
Já faz tempo que não produzo regularmente neste blogue. Nunca foi minha intenção deixá-lo tanto tempo intacto. Não se abandona assim um jardim, nem que nele haja muitos espinhos. Mesmo assim, este espaço nunca saiu da minha cabeça. 

Sempre fui viciado em informação. Sempre quis saber o máximo possível sobre o que se passava a minha volta. Com a música tenho a vantagem de saber sobre outras épocas, outros lugares e quiçá outros planetas, universos paralelos do qual estou alheio durante o fugaz período da consciência. Os textos normalmente utilizados na imprensa para falar de música buscam uma racionalização da compreensão da arte. Mesmo que os motivos sejam nobres, como fazer um texto acessível a maior parte de pessoas possível, as palavras do temente jornalista não transcendem. Falham na transe ao transar para a indústria e não à arte. Como todos os textos que se encontram neste espaço tem justamente esta falha moral, passei os últimos anos pensando cá com meus botões: que fazer para melhor transmitir esse jorro inesgotável de informações?

Certa vez me disseram que uma obra de autor depois de lançada não mais o pertence e sim ao público, às pessoas. Elas vão (re)condicionar os sentidos, as sensações provocadas ao que lhes interessam, ao que conhecem, ao que sentem. Assim, a humanidade da arte está ligada a capacidade de fazer as pessoas sentirem. Por que não um texto sobre música que ultrapasse os chavões jornalísticos? Estes tão necessários construirmos para depois desmontá-los sílaba por sílaba, palavra por palavra. Vamos à emoção descontida, às situações que parecem ter trilha sonora própria, ao dito e interdito numa singela estrofe.

A música está na nossa vida, impossível desassocia-la. Com o perdão de Nelson Rodrigues, vamos à vida como ela é, gigante em sua insignificância. Não que eu vá abandonar a resenha, mas será rara.