domingo, 30 de setembro de 2012

Neil Young & Crazy Horse - Americana (2012)


Como um trem pela noite escura, Neil Young é uma potência impossível de se deter. Nada consegue para-lo em seus 66 anos com o trigésimo quarto álbum nas paradas e o próximo a caminho. Nesta coletânea de canções da primeira onda folk americana - a dos anos 50, Kingston Trio -, dos cantores que viajavam pelo oeste nos anos da depressão e dos cantores de protesto em cidades como Chicago, Young relembra não apenas as letras em si, mas a interpretação crua, direta e obscura que elas sugerem. É justamente a alma dessas canções que não podem desaparecer e Neil Young, como um herdeiro da tradição de contestação social na música popular americana, não quer nos deixar esquecer.

O sugestivo título de 'Americana', que carrega também toda a simbologia da crítica social, já deixa o ouvinte confortável para ouvir a ode do trovador canadense às suas raízes musicais americanas. Para realizar este tarefa, ele coopta o Crazy Horse após quase dez anos de separação. A banda de Ralph Molina não deixa por menos e retoma a parceria tocando alto e com a vontade necessária de dar aos arranjos as características duras com as quais foram concebidas. O disco soa repetitivo e se arrasta pelos 57 minutos mostrando a morbidez inconsolável do pai que vê a filha morrer afogada em 'Clementine', na desilusão de um viajante com seu banjo em 'Oh Susannah' ou então a impotência de um pai que sem prata ou ouro, vem cavalgando para ver o filho pendurado pelo pescoço em 'Gallows Pole'. O disco se arrasta e é exatamente assim que ele deve soar.

Neil Young dispara o alarme para as dificuldades econômicas e para o crescimento de uma ultra-direita que se retro-alimenta de preconceitos centenários neste disco. Não é a toa que 'This Land Is Your Land' aparece quando tudo parece perdido para, numa visão otimista, nos servir de alento. A letra de Woody Guthrie teria emplacado como o hino de um EUA socialista caso houvesse uma revolução nos anos 30. É a mais bela invocação de justiça social na terra do capitalismo selvagem.

Na falta de um hino propriamente dito - no sentido de representação social -, Young bota a tampa com 'God Save the Queen' (sem os gracejos de Rotten e seus bluecaps), provavelmente o melhor que conseguiu achar. Um final realmente surpreendente.

Lembrando que NY&CH voltarão ainda este ano com Psychodelic Pill.

Faixas:
1.    "Oh Susannah"
2.    "Clementine"
3.    "Tom Dula"
4.    "Gallows Pole"
5.    "Get a Job"
6.    "Travel On"
7.    "High Flyin' Bird" 
8.    "Jesus' Chariot (She'll Be Coming Round the Mountain)"
9.    "This Land Is Your Land"
10. "Wayfarin’ Stranger"
11. "God Save the Queen"


Neil Young & Crazy Horse - Americana

Damon Albarn - Dr. Dee (2012)


Damon Albarn tem estreitas ligações com boa parte do que foi produzido de bom na ilha da bretanha nas últimas duas décadas. A lista é grande. Blur, The Good, The Bad & The Queen, Gorillaz são sucessos arrasadores nas rádios e por onde mais eles passam. Isso, claro, sem contar as participações em trabalhos de outros artistas. Ninguém passa por Albarn e fica indiferente a sua produção musical. Dr Dee é talvez o projeto mais ambicioso do londrino nos últimos anos, mais até que trilha sonora para uma ópera chinesa em 2008.

Essa criatividade inventiva tomou a forma mais recente nesta nova trilha sonora para uma ópera, desta vez inglesa. John Dee, o tal doutor, é um daqueles personagens que se não estivesse nos livros de história, poderia facilmente vir de uma tragédia de shakespeareana. Dee foi uma figura mítica e poderosa no reino da Elisabete - a que tinha culhões, não esta aí -, era matemático, filósofo, alquimista, astrônomo e uma espécie de Fausto de segunda categoria. Digo isso porque, em sua ambição por poder e conhecimento, ele fez uma espécie de pacto com as forças "herméticas" as quais pesquisava. A isso atribuem sua derrocada e esquecimento. Tanto poderia ter saído da pena de Shakespeare, que foi parar numa ópera moderna em Manchester sonorizada pelo nosso herói vocalista do Blur.

Os temas acompanham a reputação do personagem: misteriosos, obscuros, sempre deixando no ar as possibilidades. Apple Charts é a mais ligada ao que se espera de uma música de Albarn, mas o resto do disco é uma infinidade de possibilidades musicais que só um músico afiado reúne as condições para levar a cabo.

Como não poderiam faltar, os parceiros para externar o gênio musical são os velhos conhecidos, e escolhidos a dedo, Tony Allen, Paul Simon e Mike Smith. A Filarmônica da BBC unida a um coral e instrumentos como a kora formam a base melódica do álbum.

Ao que parece, neste ano não tem mais pra ninguém. (Neil Young talvez)


Faixas:
1. "The Golden Dawn"
2. "Apple Carts"
3. "O Spirit, Animate Us"
4. "The Moon Exalted"
5. "A Man of England"
6. "Saturn"
7. "Coronation"
8. "The Marvelous Dream"
9. "A Prayer"
10. "Edward Kelley"
11. "Preparation"
12. “9 Point Star"
13. "Temptation Comes in the Afternoon"
14. "Watching the Fire That Waltzed Away"
15. "Moon (Interlude)"
16. "Cathedrals"
17. "Tree of Beauty"
18. "The Dancing King"


domingo, 27 de maio de 2012

Arnaldo Antunes, Edgard Scandurra e Toumani Diabaté - A Curva da Cintura (2011)

Instrumentista com senso de improvisação apurado, o artesão da música maliense Toumani Diabaté recebeu dois dos manufatureiros da música brasileira mais ativos dos últimos anos para sessões que renderam disco e documentário para a MTV. Arnaldo Antunes e Edgard Scandurra são velhos de guerra e numa delas, o festival Back 2Black de 2010, esbarraram com este africano que já gravou com Ali Farka Touré e Ry Cooder. A apresentação do trio naquele palco, após um ensaio apenas, acompanhados por Chico Salem e Jam da Silva, empolgou e abriu as portas para a confecção de um dos melhores álbuns do ano passado no estúdio de Diabaté no Mali.
A incrível fusão da Kora, que traz as particularidades rítmicas e melódicas da arte de Diabaté, com o rock e a poesia tão viscerais nas obras de Antunes e Scandurra, sugerem uma sonoridade instigante pela forma como os arranjos tradicionais se entrelaçam para formarem algo genuinamente novo. A Kora é um capítulo à parte. Instrumento produzido de forma artesanal por Diabaté e sua família, as vinte e uma cordas presas numa caixa de ressonância cuidadosamente talhada soam como a Harpa jamais sonhou. O instrumento é um símbolo de países como o Mali, Senegal e Burkina Faso a ponto de o próprio Diabaté presentear com um políticos estrangeiros quando visitam seu país.
As letras de Arnaldo Antunes estão tão inspiradas quanto no auge dos Titãs e de sua carreira solo. Em 'Um Senhor', 'Cara', 'Meu Cabelo' (adaptada da canção Elisa, de Serge Gainsbourg), a dupla mostra a afinação e a inspiração para versos memoráveis acompanhados das linhas de guitarra precisas de Scandurra. Diabaté é a cereja do bolo, sua Kora é a base melódica das 14 faixas mais os espetaculares bônus instrumentais.
A ponte África-Brasil nunca foi tão original.

FAIXAS:

1. A CURVA DA CINTURA (Arnaldo Antunes / Edgard Scandurra)
2. CARA (Arnaldo Antunes / Edgard Scandurra)
3. CORAÇÃO DE MÃE (Arnaldo Antunes / Edgard Scandurra)
4. MEU CABELO (Serge Gainsbourg / versão: Arnaldo Antunes)
5. GRÃO DE CHÃOS (Arnaldo Antunes / Liminha / Paulo Miklos)
6. CÊ NÃO VAI ME ACOMPANHAR (Arnaldo Antunes / Edgard Scandurra)
7. QUE ME CONTINUA (Arnaldo Antunes / Edgard Scandurra)
8. UM SENHOR (Arnaldo Antunes / Edgard Scandurra)
9. PSIU (Arnaldo Antunes / Edgard Scandurra)
10. SE VOCÊ (Arnaldo Antunes / Edgard Scandurra)
11. MUITO ALÉM (Arnaldo Antunes / Edgard Scandurra)
12. CÊ SABE COMO É (Arnaldo Antunes / Edgard Scandurra)
13. IR, MÃO (Arnaldo Antunes / Edgard Scandurra)
14. KAIRA (Toumani Diabaté / Arnaldo Antunes)
Bônus
RIO SECO (Toumani Diabaté)
NEBLINA DE AREIA (Edgard Scandurra)
YACINE (Toumani Diabaté)
BAMAKO'S BLUES (Edgard Scandurra)