sábado, 17 de setembro de 2011

Os Paralamas do Sucesso - Selvagem? (1986)


Nenhuma selvageria aconteceria no RJ se não fosse o Queremos. Essa turma colocou hoje a roda pra girar no sentido dos Paralamas do Sucesso executarem seu terceiro álbum na íntegra em pleno Circo Voador, um palco emblemático para a música desta banda nesta cidade.

Passados três anos do lançamento de Cinema Mudo, dois de O Passo do Lui e um da espetacular apresentação no festival dos Medina, Os Paralamas do Sucesso encontravam-se na posição de ousar ainda mais num álbum de estúdio. Decidiram deixar 'as meninas do Leblon' um pouco de lado para cantar 'as crianças em Teerã' que pedem 'trocados pros vidros fechados'. O amadurecimento da banda também foi sentido na sonoridade, com grooves inspirados do Dub jamaicano, encarnado pelo baixo de Bi Ribeiro. 

A mudança veio em boa parte pela pesquisa e interesse dos integrantes da banda em ritmos caribenhos e africanos. O ska jamaicano já era uma influência palpitante, para o dub foi um pulo. Jamari França conta em seu livro Vamo Batê Lata sobre as referências africanas como Fela Kuti e americanas como Run-DMC, além de situar Os Paralamas na tentativa de sair da mesmice do pós-punk (leia-se Jesus & The Mary Chain, U2 e The Smiths, principalmente) ao lado de PiL, Arto Lindsay, Brian Eno e David Byrne, "cada um atirando para um lado".  

Essa mudança de direção não agradou a crítica, que se rendeu somente depois de boa parte dos 750 mil exemplares serem vendidos. No meio disso, Hermano Vianna, antropólogo e irmão de Hebert, à época estudante de mestrado, escreveu um "petardo" publicado no finado e glorioso Caderno B, do JB, refutando as críticas ao álbum da banda. (O texto está reproduzido inteiro ali embaixo)

O disco alçou Os Paralamas a um novo patamar na música brasileira e sulamericana. Os argentinos ainda hoje tem este disco como um dos mais bem aceitos de uma banda brasileira, Fito Paez que o diga.

Banda:
Bi Ribeiro
João Barone
Hebert Vianna

Faixas:
  1. "Alagados" (Bi RibeiroJoão BaroneHerbert Vianna)
  2. "Teerã" (Bi Ribeiro, João Barone, Herbert Vianna)
  3. "A novidade" (Bi Ribeiro, João Barone, Gilberto Gil, Herbert Vianna)
  4. "Melô do marinheiro" (Bi Ribeiro, João Barone)
  5. "Marujo Dub" (Bi Ribeiro, João Barone)
  6. "Selvagem" (Bi Ribeiro, João Barone, Herbert Vianna)
  7. "A dama e o vagabundo" (Bi Ribeiro, Herbert Vianna)
  8. "There's a party" (Herbert Vianna)
  9. "O homem" (Bi Ribeiro, Herbert Vianna)
  10. "Você" (Tim Maia)










O papo furado dos ingleses
Hermano Vianna
De repente, o FM brasileiro foi invadido por grupos ingleses e similares nacionais. Impossível ligar o rádio sem escutar Smiths, Cure ou o melodramático U2, bandas que, até alguns meses atrás, eram conhecidas apenas pela pseudovanguarda juvenil de nossas grandes cidades. Vitória da qualidade sobre o descartável? Finalmente os tão esperados biscoitos finos para a massa? Nem tanto. Quem acompanha, com o mínimo de seriedade, a trajetória do pop nos anos 80 sabe que os músicos britânicos vivem atualmente uma descarada falta de criatividade. Não bastam as poses entediadas, as roupas elegantes, os esquisitos cortes de cabelo ou desesperado esforço de jornais ingleses (e brasileiros) para nos empurrar grupinhos como Jesus and Mary Chain, Cult e comparsas. O rock britânico se contenta com repetições inaturáveis de clichês pós punks que nos são vendidos como se fossem o máximo da novidade. E muita gente boa cai nesse papo furado.

É certo: há anos a vitalidade habita outras praias. A música negra internacional vive um de seus períodos mais efervescentes. Do comercial (Aretha Franklin, Tim Maia) ao esotérico (Kassav, Trouble Funk): esta é a trilha sonora deste fim de século. E são esses músicos que estão sendo banidos do nosso dial (ou empurrados para o gueto dos programas especializados, como o excelente 104 Music Show da Rádio Tropical) em favor do predomínio da “nova onda” britânica. Mas alguns índices, como a votação do grupo Obina Shok entre os melhores de 85 e o sucesso da festa Funk’n`Reggae organizada por Maurício Valladares, já demonstram a formação de linhas de resistência contra a pasmaceira dark (no mau sentido).

Existem indicios até bem mais poderosos. Para encontrá-los basta fazer uma visita a qualquer um dos bailes que incendeiam o subúrbio do Rio durante os fins de semana. Ou melhor: ir direto, nas sextas-feiras, à quadra de samba da escola Estácio de Sá. É a festa mais empolgante e radical das noites cariocas. A música é violentíssima, nada que toque em nossas FMs de sucesso, um som absurdamente desconhecido na Zona Sul. Mas a massa, milhares de pessoas, faz até letras pornográficas para os “balanços” de maior popularidade. Não sei onde as equipes de som conseguem esses discos: os bailes cariocas estão atualizados com o que de mais novo é lançado pelas gravadoras independentes do Bronx nova-iorquino, berço do funk eletrônico. São nomes como Run-DMC, Fat Boys, Dana Dane, Afrika Bambaataa. Os DJs cariocas já se transformaram nas estrelas dos bailes. Suas mixagens são impecáveis e muito deles se arriscam a arranhar os discos, repetir batidas, construindo novas músicas ao vivo. Na quadra dominam os grupos de dançarinos, passos complicados repetidos por até mais de 20 pessoas, requebrados extremamente sensuais.

Se a negritude carioca sempre foi ligada na agressividade da música de Nova York, os negros baianos parecem ter preferência por ritmos mais tropicais, mais dengosos. O reggae já é parte integrante do carnaval de Salvador. Mas, em 86, quem dominou a folia foi o deboche, novo ritmo e nova dança da massa baiana, puxada pelas vozes de Luís Caldas e Sarajane. A música é uma grande salada: afoxé, reggae, algo de calipso. Muitos outros ritmos podem ser descobertos a qualquer momento: a Soca de Trinidad e Tobago (grupos como Black Stallion e Arrow), o som inrotulável dos grupos de Guadalupe (a banda - atentado Kassav), os Soukous dos países africanos de língua francesa, o Go-Go de Washington D.C., o indecente Rub-a-Dub jamaicano. Vontade de dançar, no Brasil é o que não falta.

Isso se as gravadoras e rádios ajudarem. Mas parece que vai demorar até que todas elas gastem seu cartucho britânico. Vacilos imperdoáveis já foram cometidos. O presidente da gravadora independente Celluloid, que tem entre seus contratados alguns dos nomes mais quentes da música africana e do funk (Fela Kuti, Touré Kounda, Grand Mixer DST, Time Zone), esteve no Brasil em janeiro e não conseguiu sensibilizar nenhuma das nossas gravadoras para distribuir seus discos por aqui. Arto Lindsay, músico de Nova York que faz interessantíssimas experimentações com ritmos brasileiros, noise e funk, também tentou mas lhe foi negada a possibilidade de ter seu disco Envy lançado no Brasil. Espero que pelo menos alguma gravadora tome vergonha na cara e lance o próximo LP de Naná Vasconcelos, que indica novos rumos (eletrônicos e radicais) para a MPB.

Contra os reverendos do tédio, tristeza, ingenuidade e má poesia, o pop negro contemporâneo deflagra a alegria, o bem viver. Como diz o lema, curto e grosso, de Gilberto Gil: “Trocar o logos da posteridade pelo logo da prosperidade.” Não é essa a missão da pós - modernidade?

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Hermano Vianna, 25 anos, faz mestrado em antropologia no Museu Nacional. Em março lançará pela Zahar um livro sobre as relações entre o rock brasileiro e a indústria


Publicado em 28 de fevereiro de 1986 no Jornal do Brasil


Um comentário:

alessandra disse...

Eu me lembro que a primeira coisa que li [e entendi e gostei]com análise de música pop e indústria cultural foi do Hermano Viana. Isso nos idos de 92/93, qdo eu estava na universidade e escrevia sobre música em fanzines. o texto dele saiu na Folha de SP, na Ilustrada, acho. Não recordo, mas guardei o recorte por algum tempo e cheguei a usa-lo nas 1ªas aulas de Teoria da Comunicaçao que ministrei no fim da mesma década.

Apesar do tempo que passou, desde a publicação do texto que vc reproduziu, o excerto abaixo é atual:
"O rock britânico se contenta com repetições inaturáveis de clichês pós punks que nos são vendidos como se fossem o máximo da novidade. E muita gente boa cai nesse papo furado."

E me pergunto: será que está faltando a gente abrir os ouvidos e se meter/arriscar a ouvir outras coisas? Ou acabou mesmo a criatividade e tudo tem esse cheiro de "dejavu"?

Eu ouvia bem mais música "nova" há uns 5 anos que hoje.