domingo, 6 de novembro de 2011

Eric Clapton - Clapton (2010)

Dos muros da Londres dos anos 60 sei que Clapton é Deus, e da noite de 10/10, soube como isso é muito fácil para ele. Com Clapton, lançado em outubro do ano passado, o guitarrista começa a flertar seriamente  com o jazz. Ainda somado ao show com a banda do trompetista Wynton Marsalis, que rendeu um álbum ao vivo gravado em 2011 no Lincoln Center em Nova Iorque, são indícios suficientes para acreditar numa guinada jazzística na carreira do SlowHand.
Essa mudança de direção, claro, sem deixar o blues da lado, pode revigorar as apresentações ao vivo, ainda muito concentrada nos anos 70 e 80. Neste álbum, além da escolha do repertório, os músicos convidados tinham o peso de muitos anos no jazz, como o próprio Marsalis e Allen Toussaint. As composições mostram o cuidado e o carinho de Clapton com a obra de músicos como Little Walter, Harry Woods e Walter Jacobs.
A única música deste disco apresentada naquela noite do hsbc arena é When Somebody Thinks You're Wonderful. Clapton não fugiu da tendência dos músicos de sua geração quando tocam na América do Sul, ao apresentar um repertório cheio de clássicos da carreira. Os próximos shows pela Europa e Japão podem trazer surpresas agradáveis a quem gostaria de ver essa aproximação ao jazz tomar maiores proporções. Aos 66 anos, Eric Clapton ainda dá as cartas amparada por uma fantástica banda que conta, na maioria das apresentações, com Chris Stainton, Steve Gadd, Willie Weeks e Tim Carmon.

Faixas:
01. Travellin' Alone
02. Rockin' Chair
03. River Runs Deep
04. Judgement Day
05. How Deep Is The Ocean
06. My Very Good Friend The Milkman
07. Can't Hold You Much Longer
08. That's No Way To Get Along
09. Everything Will Be Alright
10. Diamonds Made From Rain
11. When Somebody Thinks You're Wonderful
12. Hard Times
13. Run Back To Your Side
14. Autum Leaves






sábado, 5 de novembro de 2011

Primal Scream - Screamadelica (1991)

Vou começar agora uma série: COISAS QUE VI EM ALGUM LUGAR POR AÍ.
Em 2010, o Primal Scream iniciou uma jornada ao redor do planeta para comemorar os vinte anos de Screamdelica. Dia 23 de Setembro, exatamente 20 anos depois do lançamento a pérola original, foi a vez do Circo Voador receber o grito primal em uma de suas noite mais inspiradas. O Queremos organizou a movimentação para os fãs da banda bancarem o show e, mesmo com a casa não tão cheia, a banda despejou toda a energia das faixas do álbum para a turma enlouquecida dentro e fora do Circo.
Screamadelica é o último tiro no escuro de uma banda que, em 1991, estava para ser demitida da CREATION RECORDS depois de dois discos mal recebidos pelo público e pela crítica. Para Screamadelica não sair pela culatra, Jimmy Miller foi um dos responsáveis pela produção e mixagem do álbum. Miller, produtor dos Rolling Stones de Beggars Banquet até Goats Head Soup, foi o principal responsável pelo petardo Movin' On Up, muito confundida pelos ouvidos mais desatentos com a pegada de Keith Richards filmadas pelas lentes de JL Godard em 68.
A grande sacada do Primal Scream neste álbum foi a ousada mistura do rock com o dub e a música eletrônica. Slip Inside This House, do 13th Floor Elevators, caiu como uma luva nas pretensões da banda. No álbum original, essa faixa é o termômetro, define os nuances entre as três vertentes que vão variando no decorrer dos 62 minutos de ignorância.
A turnê estreou ano passado no Olympia de Londres, passou pelo festival de Glastonbury e pelo Bestival e chegou consagrada à lona da Lapa, mas sem os telões e o coral. Apesar desses detalhes, a banda não deixou por menos e estourou as caixas em uma hora e meia das mais intensas que já vi no Circo.

Faixas:
01. Movin' On Up
02. Slip Inside This House
03. Don't Fight It, Feel It
04. Higher Than The Sun
05. Inner Flight
06. Come Together
07. Loaded
08. Damaged
09. I'm Comin' Down
10. Higher Than The Sun [A Dub Symphony In Two Parts]
11. Shine Like Stars

Banda:
Bobby Gillespie - lead vocals
Andrew Innes - guitar
Robert Young - guitar, vocals on "Slip Inside This House
"Martin Duffy - keyboards, piano
Henry Olsen - bass, guitar solo on "Damaged"
Phillip "Toby" Tomanov - drums, percussion




sábado, 17 de setembro de 2011

Os Paralamas do Sucesso - Selvagem? (1986)


Nenhuma selvageria aconteceria no RJ se não fosse o Queremos. Essa turma colocou hoje a roda pra girar no sentido dos Paralamas do Sucesso executarem seu terceiro álbum na íntegra em pleno Circo Voador, um palco emblemático para a música desta banda nesta cidade.

Passados três anos do lançamento de Cinema Mudo, dois de O Passo do Lui e um da espetacular apresentação no festival dos Medina, Os Paralamas do Sucesso encontravam-se na posição de ousar ainda mais num álbum de estúdio. Decidiram deixar 'as meninas do Leblon' um pouco de lado para cantar 'as crianças em Teerã' que pedem 'trocados pros vidros fechados'. O amadurecimento da banda também foi sentido na sonoridade, com grooves inspirados do Dub jamaicano, encarnado pelo baixo de Bi Ribeiro. 

A mudança veio em boa parte pela pesquisa e interesse dos integrantes da banda em ritmos caribenhos e africanos. O ska jamaicano já era uma influência palpitante, para o dub foi um pulo. Jamari França conta em seu livro Vamo Batê Lata sobre as referências africanas como Fela Kuti e americanas como Run-DMC, além de situar Os Paralamas na tentativa de sair da mesmice do pós-punk (leia-se Jesus & The Mary Chain, U2 e The Smiths, principalmente) ao lado de PiL, Arto Lindsay, Brian Eno e David Byrne, "cada um atirando para um lado".  

Essa mudança de direção não agradou a crítica, que se rendeu somente depois de boa parte dos 750 mil exemplares serem vendidos. No meio disso, Hermano Vianna, antropólogo e irmão de Hebert, à época estudante de mestrado, escreveu um "petardo" publicado no finado e glorioso Caderno B, do JB, refutando as críticas ao álbum da banda. (O texto está reproduzido inteiro ali embaixo)

O disco alçou Os Paralamas a um novo patamar na música brasileira e sulamericana. Os argentinos ainda hoje tem este disco como um dos mais bem aceitos de uma banda brasileira, Fito Paez que o diga.

Banda:
Bi Ribeiro
João Barone
Hebert Vianna

Faixas:
  1. "Alagados" (Bi RibeiroJoão BaroneHerbert Vianna)
  2. "Teerã" (Bi Ribeiro, João Barone, Herbert Vianna)
  3. "A novidade" (Bi Ribeiro, João Barone, Gilberto Gil, Herbert Vianna)
  4. "Melô do marinheiro" (Bi Ribeiro, João Barone)
  5. "Marujo Dub" (Bi Ribeiro, João Barone)
  6. "Selvagem" (Bi Ribeiro, João Barone, Herbert Vianna)
  7. "A dama e o vagabundo" (Bi Ribeiro, Herbert Vianna)
  8. "There's a party" (Herbert Vianna)
  9. "O homem" (Bi Ribeiro, Herbert Vianna)
  10. "Você" (Tim Maia)










O papo furado dos ingleses
Hermano Vianna
De repente, o FM brasileiro foi invadido por grupos ingleses e similares nacionais. Impossível ligar o rádio sem escutar Smiths, Cure ou o melodramático U2, bandas que, até alguns meses atrás, eram conhecidas apenas pela pseudovanguarda juvenil de nossas grandes cidades. Vitória da qualidade sobre o descartável? Finalmente os tão esperados biscoitos finos para a massa? Nem tanto. Quem acompanha, com o mínimo de seriedade, a trajetória do pop nos anos 80 sabe que os músicos britânicos vivem atualmente uma descarada falta de criatividade. Não bastam as poses entediadas, as roupas elegantes, os esquisitos cortes de cabelo ou desesperado esforço de jornais ingleses (e brasileiros) para nos empurrar grupinhos como Jesus and Mary Chain, Cult e comparsas. O rock britânico se contenta com repetições inaturáveis de clichês pós punks que nos são vendidos como se fossem o máximo da novidade. E muita gente boa cai nesse papo furado.

É certo: há anos a vitalidade habita outras praias. A música negra internacional vive um de seus períodos mais efervescentes. Do comercial (Aretha Franklin, Tim Maia) ao esotérico (Kassav, Trouble Funk): esta é a trilha sonora deste fim de século. E são esses músicos que estão sendo banidos do nosso dial (ou empurrados para o gueto dos programas especializados, como o excelente 104 Music Show da Rádio Tropical) em favor do predomínio da “nova onda” britânica. Mas alguns índices, como a votação do grupo Obina Shok entre os melhores de 85 e o sucesso da festa Funk’n`Reggae organizada por Maurício Valladares, já demonstram a formação de linhas de resistência contra a pasmaceira dark (no mau sentido).

Existem indicios até bem mais poderosos. Para encontrá-los basta fazer uma visita a qualquer um dos bailes que incendeiam o subúrbio do Rio durante os fins de semana. Ou melhor: ir direto, nas sextas-feiras, à quadra de samba da escola Estácio de Sá. É a festa mais empolgante e radical das noites cariocas. A música é violentíssima, nada que toque em nossas FMs de sucesso, um som absurdamente desconhecido na Zona Sul. Mas a massa, milhares de pessoas, faz até letras pornográficas para os “balanços” de maior popularidade. Não sei onde as equipes de som conseguem esses discos: os bailes cariocas estão atualizados com o que de mais novo é lançado pelas gravadoras independentes do Bronx nova-iorquino, berço do funk eletrônico. São nomes como Run-DMC, Fat Boys, Dana Dane, Afrika Bambaataa. Os DJs cariocas já se transformaram nas estrelas dos bailes. Suas mixagens são impecáveis e muito deles se arriscam a arranhar os discos, repetir batidas, construindo novas músicas ao vivo. Na quadra dominam os grupos de dançarinos, passos complicados repetidos por até mais de 20 pessoas, requebrados extremamente sensuais.

Se a negritude carioca sempre foi ligada na agressividade da música de Nova York, os negros baianos parecem ter preferência por ritmos mais tropicais, mais dengosos. O reggae já é parte integrante do carnaval de Salvador. Mas, em 86, quem dominou a folia foi o deboche, novo ritmo e nova dança da massa baiana, puxada pelas vozes de Luís Caldas e Sarajane. A música é uma grande salada: afoxé, reggae, algo de calipso. Muitos outros ritmos podem ser descobertos a qualquer momento: a Soca de Trinidad e Tobago (grupos como Black Stallion e Arrow), o som inrotulável dos grupos de Guadalupe (a banda - atentado Kassav), os Soukous dos países africanos de língua francesa, o Go-Go de Washington D.C., o indecente Rub-a-Dub jamaicano. Vontade de dançar, no Brasil é o que não falta.

Isso se as gravadoras e rádios ajudarem. Mas parece que vai demorar até que todas elas gastem seu cartucho britânico. Vacilos imperdoáveis já foram cometidos. O presidente da gravadora independente Celluloid, que tem entre seus contratados alguns dos nomes mais quentes da música africana e do funk (Fela Kuti, Touré Kounda, Grand Mixer DST, Time Zone), esteve no Brasil em janeiro e não conseguiu sensibilizar nenhuma das nossas gravadoras para distribuir seus discos por aqui. Arto Lindsay, músico de Nova York que faz interessantíssimas experimentações com ritmos brasileiros, noise e funk, também tentou mas lhe foi negada a possibilidade de ter seu disco Envy lançado no Brasil. Espero que pelo menos alguma gravadora tome vergonha na cara e lance o próximo LP de Naná Vasconcelos, que indica novos rumos (eletrônicos e radicais) para a MPB.

Contra os reverendos do tédio, tristeza, ingenuidade e má poesia, o pop negro contemporâneo deflagra a alegria, o bem viver. Como diz o lema, curto e grosso, de Gilberto Gil: “Trocar o logos da posteridade pelo logo da prosperidade.” Não é essa a missão da pós - modernidade?

______________________________________________

Hermano Vianna, 25 anos, faz mestrado em antropologia no Museu Nacional. Em março lançará pela Zahar um livro sobre as relações entre o rock brasileiro e a indústria


Publicado em 28 de fevereiro de 1986 no Jornal do Brasil


segunda-feira, 18 de julho de 2011

Nick Drake - Five Leaves Left (1969)


Vinte e um anos de idade e autor deste LP formado por dez canções fundamentais. Nick Drake, durante sua curta vida, foi tão enigmático quanto suas composições. Introspectiva e universal, ao mesmo tempo, sua poesia é madura e inspiradora para qualquer ser humano. É também referência de música 'folk' para as novas gerações, claro. Sua obra começou a ser mais conhecida nos últimos dez anos, ninguém pode ficar indiferente a sonoridade deste inglês.

Apesar de lançar seus três álbuns numa gravadora importante, que abria espaço para a música 'folk' e oferecia os melhores aparatos técnicos, Drake não conseguiu sucesso comercial imediato. Isso o perturbou por anos. Queria estar se comunicando diretamente com jovens, como ele. Queria mudar o mundo com a força de sua poesia, com a suavidade de seu dedilhado.

A voz de Nick é um capítulo a parte na gravação deste disco. O resultado, uma voz grave e suave, aveludada com os acordes do violão, é uma engenhosidade do produtor Joe Boyd. Há um microfone somente para captar a voz de Drake, mas ela também é captada pelo microfone do violão, criando um efeito incrível, que torna a melodia da canção ainda mais agradável.

A falta de uma agenda de apresentações e, igualmente, a ausência de divulgação por parte da gravadora são alguns motivos do insucesso comercial. Drake fez algumas apresentações em bares e restaurantes mas sentia-se incomodado com o barulho das conversas. Não se sentia à vontade num palco desses.

Participaram do disco Richard Thompson, guitarrista do Fairport Convention, e Danny Thompson, baixista do Pentangle, além de Paul Harris no piano e Tristam Fry na bateria e percussão. Rocky Dzidzornu combina suas congas perfeitamente com a voz de Drake. Robert Kirby, um amigo da época de escola, é o responsável pelos belos arranjos.

Faixas:
01. Time has told me
02. River man
03. Three hours
04. Way to blue
05. Day is done
06. Cello song
07. The thoughts of Mary Janne
08. Man in a shed
09. Fruit tree
10. Saturday sun



Five Leaves Left




domingo, 17 de julho de 2011

Burro Morto - Baptista Virou Máquina (2011)

Outro dia entre numa das últimas boas lojas de disco que sobraram na cidade do Rio de Janeiro procurando por este Baptista que virou máquina. Falei com o balconista gente fina que nunca tinha ouvido falar na banda, mas me indicou outros álbuns interessantes. Também falei com o dono da loja. Eu disse o nome da banda e ele entendeu 'Do Amor', e quando finalmente entendeu o nome da banda disse que nem saberia quem fornecesse o disco. Saí de lá com uns disquinhos a mais na bagagem e uma sensação estranha.

A dificuldade de distribuição dos álbuns de bandas é alarmante. Mesmo os artistas que recebem incentivos do governo federal têm tiragem limitada e não conseguem distribuir a um número de cidades razoável. Este disco foi lançado há seis meses e já se encontra esgotado em lojas de departamento como Fnac e Livraria Cultura. Por isso, imagino, que os integrantes da banda não se preocupam com a farta propagação do álbum pela rede, inclusive antes do lançamento oficial.

Este é o segundo disco deste quinteto instrumental paraibano que se apresentou no Rio durante a Mostra Instrumental Contemporânea no mês passado. Mesmo sem letras, o disco conta a história de Baptista, um sujeito que vive num lugar onde todos só trabalham graças a "avanços médicos". Um belo dia, Baptista sofre um acidente e desmaia. É quando sonha com todos os sentimentos, prazeres e alegrias do ser humano, que naquele momento estão privados a ele. A versão física do álbum conta com um DVD com este curta, uma interessante, porém manjada, crítica ao capitalismo.

A sonoridade da banda viaja entre o afrobeat e o rock psicodélico e vai se tornando mais melódico a partir da tomada de consciência (ou da saída da condição de alienado) do personagem principal. A banda conta também com a guitarra de Fernando Catatau na faixa Cataclisma.

Formação:
Haley
Daniel Ennes
Leonardo Marinho
Natcho Gonsalves
Ruy José

Faixas:
01. O céu acima do porto
02. Transistor Riddim
03. Tocandira
04. Baptista, o maquinista
05. Volks Velho
06. Foda do futuro
07. KalaKuta
08. Cataclisma
09. Volte Amor
10. Luz Vermelha








terça-feira, 10 de maio de 2011

Fleet Foxes - Helplessness Blues (2011)


Sim, doutor! O Fleet Foxes lançou seu segundo disco. A ignorância gráfica na capa e o poster (presente pelo menos na versão em vinil) são os mimos da banda para o fã ficar curtindo enquanto deixa a agulha correr pelo bolachão. Três anos após lançar o espetacular disco de estréia (Fleet Foxes, 2008), o grupo retorna como um sexteto. Morgan Henderson, antigo integrante do Blood Brothers, levou ao Fleet Foxes sua experiência de multi-instrumentista.
Neste álbum não há um grande "hit" como White Winter Hymnal. As letras são mais profundas, a métrica digna dos grandes compositores da música folk americana dos anos 50 e 60, principais inspirações para este conjunto, que mostra uma destreza ainda maior nos instrumentos. A banda não levou horas dentro do estúdio. Como Van Morrison, em Astral Weeks, gravaram em poucas horas, de forma espontânea, o som que a banda tem hoje. Estas doze faixas levam o ouvinte para muito próximo do ambiente das apresentações da banda. Para quem está no Brasil, e não tem chance de pular fora e topar com eles em algum canto, fica o gostinho bom.
Esta turma da cidade de Hendrix vai se firmando, como já esperava-se, como a principal banda folk dos EUA.

Faixas
"Montezuma" 
"Bedouin Dress" 
"Sim Sala Bim" 
"Battery Kinzie" 
"The Plains/Bitter Dancer" 
"Helplessness Blues" 
"The Cascades" 
"Lorelai" 
"Someone You'd Admire" 
"The Shrine/An Argument" 
"Blue-Spotted Tail" 
"Grown Ocean"

Formação:
Robin Pecknold: vocal principal, violão
Skyler Skjelset: guitarra, bandolim
Christian Wargo: baixo, vocais
Casey Wescott: teclado, bandolim, vocais
Joshua Tillman: bateria, vocais
Morgan Henderson: multi-instumentista e arranjador





segunda-feira, 9 de maio de 2011

PJ Harvey - Let England Shake (2011)


Sete álbuns, uma peel sessions, músicas que marcaram os 90's e muita história pra contar na mala. Let England Shake, o oitavo da cantora que estreou com Dry em 1992, veio para consagrar definitivamente seus 19 anos de carreira. Ela está entre as poucas cantoras que podem se gabar de trazer referências da literatura para a música. Nesse álbum, a cantora cita como influências numa entrevista para o sítio Bridport os escritores T.S. Eliot e Harold Pinter, além de bandas como The Doors, Velvet Underground e The Pogues.
A Island Records, a mesma que lançou Wake Up The Nation de Paul Weller em 2010, é a gravadora de Harvey e parece querer liderar ou participar de (mais uma) revolução na música de língua inglesa. O selo que lançou Nick Drake, King Crimson, Wailers e Traffic, só pra citar alguns poucos, na verdade vem tentando agradar o público inglês, principalmente os jovens, que está insatisfeito com os rumos da economia do país.
A maré parece estar virando a favor do lendário selo rosa. PJ Harvey atingiu a oitava posição na parada britânica, fez um das melhores apresentações do Coachella deste ano e sacudiu a Inglaterra inteira com seu disco. A banda está voando, como provam os shows da turnê. John Parish, colaborador desde 1995 em To Bring You My Love, comanda as baquetas de forma espetacular. Mick Harvey, que foi membro do Bad Seeds, participa da banda, principalmente no baixo. Vale chamar atenção também para The Colour Of The Earth, versos inspirados para uma bela canção de amizade e guerra.
Harvey talvez inaugura aqui um novo conceito de álbum: o de guerra. Alguém tão importante quanto Homero na literatura? Tomara!

SHOW COMPLETO NO COACHELLA 2011 EM VíDEOS!

Faixas:
01. Let England Shake
02. the Last Living Rose
03. The Glorious Land
04. The Words That Maketh Murder
05. All and Everyone
06. On the Battleship Hill
07. England
08. In The Dark Places
09. Bitter Branches
10. Hanging In The Wire
11. Written on the Forehead
12. Colour Of The Earth

Banda:
PJ Harvey - vocais, harpa, saxofone, guitarra, violino
John Parish - bateria e percussão
Mick Harvey - piano, baixo, órgão e guitarra
Jean-Marc Butty - vocais de apoio e bateria



domingo, 8 de maio de 2011

Grinderman - Grinderman 2 (2010)

PQMP!! Eu escrevo um texto bacana num domingo à noite e este monte de lixo desse computador me faz a cagada de dar pau e apagar tudo! Mas depois de contar até dez, lá vamos nós outra vez...

Na MOJO de outubro do ano passado Nick Cave disparou: "Esse é o monstro mais maligno!". Com esse lobo possesso na capa, ele provavelmente está certo. A banda Grinderman é a versão rock'n'roll dos Bad Seeds. Mas não se engane, isso vai além de uma distração de final de semana. Não satisfeito com a pressão das sementizinhas do mal, Cave formou uma banda para ser mais visceral que nunca e deixar todas as atenções no quarteto voz, guitarra, baixo e bateria. A cacetada Mickey Mouse and the Goodbye Man não tem a sonoridade do resto do disco, mas vem com o pé na porta para começar a contar uma história com deuses, uma criança pagã e, claro, o lobo.

Explorando todo potencial de seus anos de muito roque, Cave comanda os nuances pelos quais a banda explora cada instrumento e cada som. Warren Ellis, Martyn Casey e Jim Sclavunos correspondem e fazem o serviço ficar melhor que o disco de estréia da banda, de 2007. A história ganha contornos de ópera-rock com letras interligadas e um livreto de 16 páginas na edição em vinil - o que realmente interessa - com ilustrações que só ajudam a deixar a história ainda mais enigmática e subjetiva.

Não só um dos melhores discos de rock de 2010, Grinderman 2 é um dos melhores lançamentos do ano, que deixou várias pedradas do bom e velho ronquenrou.



Faixas:
01. Mickey Mouse And The Goodbye Man
02. Worm Tamer
03. Heathen Child
04. When My Baby Comes
05. What I Know
06. Evil
07. Kitchenette
08. Palaces of Montezuma
09. Bellringer Blues

Formação:
Martyn Casey – baixo, violão
Nick Cave – vocais, guitarra, orgão e piano
Warren Ellis – violão, violino e bandolim
Jim Sclavunos – bateria, percussão





domingo, 13 de março de 2011

The Mothers Of Invention - Freak Out! (1966)

Todo mundo sabe quem é o pai, mas a mãe das invenções que dão certo ninguém quer saber. Como filho feio só tem mãe, Freak Out! é o álbum de estréia The Mothers Of Invention. Na Califórnia dos anos 60, o feio (para as classes dominantes) era o bonito (para uma geração inteira de jovens). Isso explica muita coisa.
Em 1965, Franz Zappa morava em Los Angeles e estava na casa de um amigo, conhecido como 'Wild Bill', quando acompanhou o noticiário sobre as revoltas no bairro de Watts daquela cidade. Essa revolta ocorreu em um bairro onde a população era de maioria negra. O fato que desencadeou a revolta foi a abordagem de um policial branco que fazia uma ronda de moto a um motorista negro que aparentemente dirigia embriagado. O policial submeteu o motorista a "testes" para comprovar sua imcapacidade de dirigir um carro, como andar em linha reta e levar o dedo indicador ao nariz, no meio da rua. O irmão do motorista passava na hora pela rua e foi impedido de levar o carro pelo policial. As pessoas que passavam pelo local se aglomeravam em dezenas e rapidamente em centenas, também com mais policiais. Quando a polícia prendeu os irmãos e a mãe deles, a multidão começou a jogar pedras. Os policiais foram embora deixando as pessoas em fúria para trás. O resultado foi seis dias de revoltas e saques a lojas e fábricas onde era cotidiana a descriminação racial. Zappa, atento aos acontecimentos ao seu redor, compôs "Trouble Every Day", uma crítica às injustiças sociais, à violência empregada em tensões raciais e ao sensacionalismo da imprensa.
No ano seguinte, Tom Wilson, lendário produtor que já trabalhava para a MGM Records, no selo Verve, ouviu a demo da música e julgou estar diante de uma banda de blues-rock. Ofereceu o contrato e entrou no estúdio com a banda. Quando os The Mothers gravaram "Who's Are The Brain Police?" e "Anyway the wind blows" o produtor se deu conta de que não era bem assim. Ligou para a sede da empresa, em Nova Iorque, e conseguiu carta branca para a trupe de Zappa fazer seu álbum duplo, conceitual de estréia. A banda fazia experimentos musiciais em cada faixa, sem cair nas características mais batidas da música psicodélica. Cada letra tem um discurso, seja uma sátira ou uma questão social.
O auge da experimentação sonora e lisérgica veio em "The Return Of The Son Of Monster Magnet" em que Suzy Creamcheese, uma personagem fictícia criada por Zappa, tem um diálogo surreal com a voz de sua consciência. A capa do LP original, duplo nos EUA, mas simples na Inglaterra, era na capa e na contra-capa fotos lisergicamente tratadas para retratar a postura da banda. Dentro, a capa trazia notas sobre as músicas, tantando explicar um pouco o conceito em que o álbum fora realizado, além de um guia de lugares bacanas para se visitar em LA e um aviso da polícia.
Freak Out! é, facilmente, um dos cinco melhores discos de estréia de todos os tempos na música popular mundial.
Faixas:

1. Hungry Freaks, Daddy
2. I Ain't Got No Heart
3. Who Are the Brain Police?
4. Go Cry on Somebody Else's Shoulder
5. Motherly Love
6. How Could I Be Such a Fool?
7. Wowie Zowie
8. You Didn't Try to Call Me
9. Any Way the Wind Blows
10. I'm not Satisfied
11. You're Probably Wondering Why I'm Here
12. Trouble Every Day
13. Help, I'm a Rock
14. It Can't Happen Here
15. The Return of the Son of Monster Magnet

Formação:

Frank Zappa - guitarra, teclados, percussão, vocais
Ray Collins - vocais, harmônica, percussão
Elliot Ingber - guitarra
Roy Estrada - baixo, vocais
Jimmy Carl Black - bateria, vocais

The Mothers Of Invention - Freak Out!

sábado, 12 de março de 2011

Marcelo Jeneci - Feito Para Acabar (2010)

Hoje tem apresentação do Marcelo Jeneci na cidade do Rio de Janeiro e quem ainda não assistiu é bom não perder porque ele é um cara feito para acabar. A piada é ruim mesmo porque não é uma piada. A apresentação de janeiro foi no bairro do Leblon, teatro Oi Casa Grande, e contou com uma orquestra de câmara regida pelo músico Arthur Verocai. No Oi Futuro de Ipanema, hoje, o Jeneci, que teve seu álbum bancado, em parte (quanto será?), com dinheiro público graças à lei de incentivo à cultura aplicada pelo Ministério da Cultura, vai engatar seu segundo show na cidade e na zona sul. Também patrocina o disco a Natura, empresa de produtos de cosméticos, ou algo do tipo, e a Oi tem algum tipo de acordo com o músico.
Nessa altura dos acontecimentos você se pergunta efusivamente: "O que isso tem a ver com música?!". Eu digo: - Pácas, Anônimo (o sujeito que mais frequenta esse blogue)! A relação de quem faz música, não necessariamente um artista, com quem banca financeiramente tudo que envolve a produção de um álbum, não necessariamente, quase nunca, um mecenas, é importante para entender quem é o músico e o que é o som dele. As gravadoras e os selos independentes, que ainda sobrevivem com alguma força na Europa e EUA principalmente, são importantes não apenas para financiar e lucrar sobre algum trabalho artístico. Há nessa situação um compromisso artístico, de promoção da música e de quem a faz. A necessidade do lucro rápido fez essa relação ficar cada vez mais rara, mas ela ainda existe, mesmo com artistas das novas gerações.
Quando o governo e empresas particulares resolvem financiar diretamente a produção cultural do país abrem uma situação perigosa. Todos querem parecer 'bonszinhos' e aparecer como motivadores da cultura brasileira. Essa relação se espalhou por toda produção cultural brasileira. Na música, o que se ouve e o que se vê dos artistas financiados por parcerias entre estado e iniciativa privada são composições com letras vazias, pouca inventividade artística e criatividade musical, além de apresentações tímidas, de quem pouco tem jeito para a coisa. Uma parceria dessas financiaria o disco da Legião Urbana em início de carreira? Colocaria dinheiro numa banda que carrega um discurso social forte como os Sex Pistols? Isso fede à cultura estatal ou arte oficial.
Preciso deixar uma resalva aqui. A banda Cidadão Instigado, principalmente pela figura do guitarrista Fernando Catatau, é a exceção que honra a turma pelo menos no que se refere à criatividade artística e musical. Do resto - Otto, Tulipa, Bárbara Eugênia, Siba e a Fuloresta, Céu, Jeneci, Do Amor, Lucas Santtana, Mombojó, Móveis Coloniais de Acaju, Orquestra Contemporânea de Olinda, Superguidis e Violins - espero que cumpram o profético título deste álbum e mostrem que foram feitos para acabar, nati-mortos.
No Brasil-Anos 2000, a música popular feita pela nova geração, que está na faixa-etária de 30 à 35 anos, é dividida em duas: Entretenimento para as massas, bancado principalmente pelas filiais das grandes gravadoras, e entretenimento para a parte da classe-média e a parte dos ricos ricos que não querem se misturar mas também não são exigentes no que consomem. Pouquíssimos artístas por aqui exercem com plenitude o papel de críticos imanentes da sociedade, desta vez colocando todos os artistas, músicos ou não, que estão na ativa, no mesmo barco.
Tudo bem, Anônimo. Não se irrite! Vou falar do disco. Ou será que já falei? Ou será que já falei de toda uma geração de músicos que sob o epitáfio de "A Nova MPB" estará sepultada dentro em breve? Se não, o disco é bem executado e produzido. Os músicos, assim como o produtor, são competentes. Não há canções inspiradas, longe disso. O álbum se arrasta durante seus 62 minutos, a melhor parte é quando finalmente acaba.
Como eu não tenho nenhuma pressa, vou esperar o Marcelo Jeneci vir tocar no Méier, quando a reforma do Imperator estiver concluída. Mas espera aí! Será que o Marcelo Jeneci toca no Méier?


Faixas:
1. Felicidade
2. Jardim Do Eden
3. Copo D'agua
4. Cafe Com Leite De Rosas
5. Quarto De Dormir
6. Pra Sonhar
7. Por Que Nos?
8. Dear-Te-Ei
9. Longe
10. Tempestade Emocional
11. Show De Estrelas
12. Pense Duas Vezes Antes De Esquecer
13. Feito Pra Acabar

Marcelo Jeneci - Feito Para Acabar





Todos os vídeos acima postados pela Natura, no Youtube. Como precisa de gente para elogiar, esse rapaz!




Para quem quer saber mais sobre a lei de incentivo à cultura, clique aqui.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Isle Of Wight Festival 1970



Isle of Wight Festival 1970


O verão de 1970 foi bastante diferente para os habitantes da ilha de Wight, mesmo em comparação aos dois anteriores. Os cinco dias entre 26 e 30 de agosto viraram o lugar para o avesso. A semente plantada pelo primeiro festival na ilha, em 1968, acabara por render seu fruto mais espetacular. Naquele verão, o festival atraiu cerca de 600 mil pessoas, uma quantidade seis vezes maior que a própria população da ilha. Atraídos por artistas do quilate de Miles Davis, Leonard Cohen, Who e Jimi Hendrix Experience, jovens de toda Inglaterra, Europa e Estados Unidos rumaram para a ilha de veraneio onde só é possível chegar de barco.


A expectativa da organização do festival era receber um público de 200 mil pessoas. Para isso, prepararam uma fazenda em Afton Down, parte oeste da ilha, cobrando somente três libras para sexta, sábado e domingo. A ilha e o festival foram se tornando um barril de pólvora a partir de quinta, quando as pessoas começaram a chegar e não pararam mais. Felizmente, o único lugar onde esse barril explodiu foi no palco, nos amplificadores dos artistas que se sucederam ali ao longo de cinco dias. Mesmo sem acontecer o pior, os moradores não gostaram nada de hippies, ativistas políticos de esquerda e, muito menos, motoqueiros com suas motos barulhentas, minoria neste festival, andando por “suas” ruas. Outro pequeno incidente foi o boato que o festival se tornara de graça e, por isso, várias pessoas tentaram derrubar o cercado para entrar na marra. Com todas as dificuldades que cercam a organização de um evento assim, essa edição acabou sendo a última do festival.



As comparações com o festival de Woodstock, ocorrido em Bethel, Nova Iorque, cerca de um ano antes, são inevitáveis. O caráter social e político são imbatíveis. Nada supera um evento contra-cultural daquele porte no quartel general do capitalismo. A comparação enquanto artistas escalados, o festival inglês ganha pela pluralidade de ritmos e formas de se fazer música, apesar de alguns artistas terem participado dos dois festivais. A partir daí, qualquer comparação fica difícil de ser feita.
O festival da Ilha de Wight de 1970 foi o clímax do projeto que começara dois anos antes. A aliança entre a presença de um público grandioso com um ecletismo musical peculiar para qualquer festival grande foi o que fez deste o maior de todos os tempos.



Quarta e quinta (26 e 27 de agosto)

Os festivais ingleses, normalmente, são em bank holidays – como eles chamam os feriados prolongados por lá -, sempre de três dias. Porém, naquele ano, os organizadores resolveram esticar um pouco mais o festival e conseguiram apresentações para quarta e quinta. A maioria dos artistas que se apresentaram nesses dias não teve vida longa. As apresentações foram pouco documentadas, sabe-se muito pouco sobre as músicas dos shows, as reações do público e desempenho dos artistas.
Na quarta, o autor de Bobby McGee, Kris Kristofferson foi a atração mais comentada. Na quinta, a Supertramp fez uma de suas primeiras apresentações. Alguns dias antes, eles tinham lançado a primeiro disco e os anos 1970 seriam bastante lucrativos para a banda.
O acaso de Caetano Veloso e Gilberto Gil estarem vivendo na Inglaterra justamente quando o festival foi realizado gerou a oportunidade para uma apresentação de Gil no festival. Provavelmente Gil era o único artista no festival que não cantava predominantemente em inglês. As informações da apresentação de Gil são poucas e desencontradas. Em alguns textos, há relatos de uma participação de Caetano Veloso e a boa recepção do público ao som de Gil. As músicas apresentadas não são conhecidas, mas fica o orgulho de ter um dos principais movimentos musicais brasileiros representados no maior festival de música do mundo.

Sexta (28 de agosto)

Quando a manhã de sexta trouxe o calor do verão de volta à ilha, o público começava a ocupar o campo da fazenda e os morros em volta. Foi graças a esses morros, à direita do palco, que o público atingiu os números estratosféricos que até hoje impressionam.
A primeira banda que subiu ao palco naquele dia foi a Fairfield Parlour, que com o nome de Kaleidoscope aparecerem na trilha sonora de Zabriskie Point. Talvez a primeira apresentação que se tornaria lendária é a do Taste. Power-trio fiel ao blues elétrico, que contava com o lendário guitarrista Rory Gallagher, já tinha data para acabar quando pisaram no palco do festival. Esta foi uma das últimas apresentações da banda e seus integrantes já nem se falavam mais na época do show. Essas desavenças não foram obstáculo para uma performance impecável.



Como a concorrência não era pequena, fica difícil cravar alguma banda como a principal atração de um dia ou de outro. Após o Taste, foi a vez de a banda estadunidense Chicago mostrar seu repertório baseado nos dois primeiros discos, The Chicago Transit Authority e Chicago. Então, subiu ao palco os britânicos da Family que estavam começando a flertar com o rock progressivo. O primeiro grande dia do festival foi encerrado pelo Cactus. Os estadunidenses tinham acabado de lançar seu primeiro álbum e já tinham a fama de uma das bandas mais pesadas do blues-rock. Boa parte dessa fama era justificada pela presença de Tim Bogert no baixo e do baterista Carmine Appice, uma das melhores “cozinhas” do rock’n’roll.
O terceiro dia de festival, que mostrou Taste, Family, Chicago e Cactus; foi o mais pesado, que ainda contou com o coral Voices of East Harlem. Os amplificadores já estavam devidamente testados e aprovados.


Sábado (29 de agosto)

No sábado veio o clímax da ansiedade que tomava conta da ilha desde quarta entre o público e desde muito antes entre quem trabalhava para fazer o festival. O som estava funcionando como deveria, o palco agüentava bem, mas a maior parte do público já estava ali há três dias. Isso significava três dias sem um banho adequado, sem dormir e comer bem. Ainda contando com as bad-trips, o quarto dia já não era tão agradável quanto os outros. Por isso, a resposta do público às apresentações de alguns artistas não foram positivas.
Joni Mitchell foi a primeira atração de peso do dia, e também a primeira a provar a irritação da platéia. Um hippie subiu no palco para fazer algum discurso. Quando foi retirado na marra pelo empresário da cantora, o público começou a vaiar intensamente. Ela só conseguiu terminar a apresentação depois de fazer um apelo à audiência.
Após a apresentação de Tiny Tim, que acalmou um pouco os ânimos da gigantesca massa, Miles Davis levou toda a exuberância de Bitches Brew para aquelas 600 mil pessoas. Ninguém pode vaiar Davis. Não porque é proibido, é no mínimo falta de inteligência. Além das músicas do álbum recém lançado, as releituras elétricas para as músicas de outros álbuns foram formidáveis. A banda que acompanhou Miles contava com Gary Bartz, no sax soprano, Chick Corea, no piano, Keith Jarrett no órgão, Dave Holland como baixista, Jack de Jonhnette na bateria e Airto Moreira na percussão.
O Tem Years After já era uma banda respeitada do blues-rock britânico, inclusive nos Estados Unidos graças à repercussão de sua apresentação em Woodstock. Os ingleses apresentaram na Ilha de Wight uma seqüência muito parecida com o festival estadunidense anterior. O trio de rock progressivo Emerson, Lake and Palmer fez desta, a sua segunda apresentação apenas. Lá, eles tocaram na íntegra o álbum Pictures of Exhibition, inspirado numa peça de dez movimentos para piano do russo Modest Mussorgsky de 1874, que foi lançado somente em 1971.
Alguns momentos após a saída do ELP era a vez de uma das bandas mais aguardadas. O Doors, quando pisou no palco, já era uma banda consagrada, com cinco álbuns lançados. Não há registros seguros da lista de músicas apresentadas durante o show, mas, provavelmente, foi uma mescla dos álbuns já lançados. A apresentação da banda não foi gravada oficialmente em áudio e vídeo por uma exigência da banda. Os registros que existem são gravações da platéia.
Apesar disso tudo, o melhor da noite ainda estava por vir. O Who era a banda símbolo do rock inglês. Através de sua história, pode-se contar a caminhada do gênero durante os anos 60 de 70 naquele país. Mais que isso, você pode entender como a juventude inglesa tentava se livrar da caretice de uma sociedade que ainda juntava os cacos da guerra ouvindo as músicas do Who. Aquele show não foi uma apresentação musical apenas. Foi um dos maiores acontecimentos que celebrou uma geração que começava a entrar na fase adulta com a certeza de que já haviam mudado muita coisa. Eles eram livres. É dessa liberdade que a ópera-rock Tommy trata. No seu segundo festival na ilha, o Who estava em plena turnê do álbum Tommy, de 1969, e já havia feito concertos históricos como o do festival de Woodstock e no refeitório da universidade de Leeds, além da própria ilha de Wight. Porém, a carga histórica dessa apresentação é maior. A banda estava no auge da turnê e tocava melhor que nunca.
Quando o Who saiu do palco deixou um público satisfeito, extasiado e cansado. A madrugada aproximava-se do fim quando Sly Stone e sua trupe assumiram o comando para agitar o público com clássicos de seu repertório como I want to take you higher e Dance to the music. Quando a banda fez um intervalo, algum ativista político subiu ao palco para discursar e virou alvo de latas e garrafas que vinham da todos os lados. O guitarrista Freddie Stone levou a pior, foi acertado na cabeça e a precisou viajar para algum posto médico. Certamente não era essa a viagem planejada pelo guitarrista para aquela noite. A banda deixou o palco prometendo voltar no dia seguinte, mas esse retorno nunca aconteceu. Melaine, uma veterana de Woodstock, foi a última atração daquele sábado que já havia virado domingo há várias horas.

Domingo (30 de agosto)


A platéia que conseguiu ficar até domingo dentro daquela fazenda em Afton Down foi acordada pelo ensaio do Jethro Tull, em mais uma manhã ensolarada. Ser acordado pela passagem de som de uma banda como a de Ian Anderson é algo que somente um festival assim pode proporcionar.



O primeiro show que animou a platéia no derradeiro dia de festival foi o Free. A banda de Paul Rodgers estava na estrada com seu terceiro disco, Fire and Water, e botaram pra quebrar com All Right Now, talvez a melhor música da carreira da banda, e também com sua interpretação de Crossroads.
Donovan apareceu no festival ainda com o esquema de dois “sets”. O primeiro era acústico, sozinho. O segundo, elétrico com a banda Open Bar. Moody Blues e o Jethro Tull terminaram a parte das bandas boas e mortais do dia dando um aperitivo para o que viria dali a diante.
Já era segunda-feira, 31 de agosto, quando James Marshall Hendrix pisou no palco do festival ao lado de Mitch Mitchell e Billy Cox, sob a alcunha de ‘The Jimi Hendrix Experience’, abriram o show com a distorcida versão de God Save The Queen. Ali, Hendrix e sua banda eram as estrelas máximas do rock. O Who talvez dividisse o posto, os Stones arrastavam multidões e faziam muito dinheiro, mas não encarnavam o rock’n’roll tanto quanto o Who e o Experience naquele momento.
Jimi não estava no auge de sua técnica. 1969 havia sido um ano complicado para o musico. Hendrix perdera seu baixista, Noel Redding, e resolvera dar um tempo no Experience. Organizou a Band of Gypsys, com Cox no baixo e Buddy Miles na bateria, fez apresentações lendárias com essa banda no Fillmore East na virada do ano de 69. A formação que proporcionou as duas horas de música na Ilha de Wight era, portanto, uma miscelânea do Experience - a fusão de rock com jazz de Mitch – e com a Band of Gypsys – dos graves carregados de soul e funk de Billy.
Apesar da importância deste show para a carreira da banda e para o rock’n’roll, não é dos melhores da carreira de Hendrix. Essa nova versão do Experience fazia uma conturbada turnê pela Europa que acabou na primeira semana de setembro com o baixista tendo um colapso nervoso. O que torna esse show ainda mais histórico é o desenrolar da trajetória meteórica do garoto de Seattle. Foi o último concerto de Hendrix para seu público inglês. 600 mil pessoas estavam lá para dizer adeus e só saberiam disso três semanas depois. 600 mil pessoas para saudar o maior músico que o rock jamais teve. Para toda aquela gente no meio de um festival de proporções inimagináveis Hendrix só poderia ter feito o melhor show de rock de todos os tempos.
De certa forma, o Jimi Hendrix Experience encerrou a parte elétrica do festival. Os shows seguintes eram todos baseados em instrumentos acústicos. Quem teve a tarefa de encarar o público pós-Hendrix foi Joan Baez. Naquela altura da carreira, Joan já estava acostumada a “enfrentar” qualquer tipo de platéia. Com um repertório que mesclou suas composições e versões, principalmente dos Beatles, a musa do folk estadunidense ganhou a todos facilmente. Um dos pontos altos de sua participação foi sua releitura para Let it Be.



Agora só faltavam duas atrações no meio daquela madrugada. Leonard Cohen foi o penúltimo a se apresentar. Com apenas dois discos lançados até então, Cohen fez um show impecável, de quase noventa minutos com a banda The Army. Além das letras e melodias inspiradas, Cohen ganhou o público com poesia, seu charme inconfundível e lábia afiada. Cartas na manga que o canadense usa ainda hoje com sucesso estrondoso. As versões para The Partisan, Suzanne e Bird On The Wire são históricas.
O encerramento do festival ficou por conta do mesmo artista que abriu Woodstock: Richie Havens. Já era manhã de segunda quando Havens recepcionou a alvorada com Here Comes the Sun. Sua banda contava com um baixista, um percussionista, um guitarrista com um violão, além de sua voz e violão.
“This is the last festival, enough is enough. It began as a beautiful dream but it has got out of control and became a monster.” Essa era a sensação de muita gente que esteve lá naqueles dias logo após o encerramento do festival. Essa declaração, atribuída ao empresário Ron Foulk em primeiro de setembro de 1970, sintetiza bem as razões pelas quais o festival não foi mais realizado. O principal problema era logístico. Como transportar tanta gente durante cinco dias entre ilha e continente, e dentro da ilha? E a volta? Como acomodar essas pessoas de forma razoável durante o festival? Outras preocupações eram latentes e a conclusão foi a de que não havia condições para manter um festival dessas proporções.
O festival da Ilha de Wight terminou no auge. Não foi único como Woodstock, mas conseguiu construir uma aura em torno do que houve ali. Consegue ainda, mais 40 anos depois, chamar atenção dentro do turbilhão de informações que a internet traz. Que venham mais festivais como os da Ilha de Wight!






(clique nas fotos para ampliá-las)