segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Trilha Sonora do filme Deus e o diabo na terra do sol (1964)

O maior cineasta brasileiro não poderia faltar nesta série. Numa de suas produções mais marcantes, a trilha sonora é assinada por Sergio Ricardo, que o próprio diretor apresenta e justifica a escolha do sambista para compor a trilha sonora. Ninguém melhor que o próprio Glauber Rocha para apresentar o álbum.


DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL

cancioneiro do nordeste
composto e interpretado por
SERGIO RICARDO

Letras de
GLAUBER ROCHA


O cego Zé, guiado apenas por seu primo Pedro das Ovelhas, me disse que ele cantava para não perder o juízo; pegava o cavaquinho e, voz de angústia, furando as tardes de Monte Santo, invocava amores perdidos e crimes terríveis.

Quem anda pelo sertão conhece bem um cantador -- velho e cego (que cego vê a verdade no escuro e assim canta o sofrimento das coisas) bota os dedos no violão e dispara nas feiras, levando de feira em feira e do passado para o futuro, a legenda sertaneja: história e tribunal de Lampião, vida, moralidade e crítica. Na voz de um cantador está o "não" e o "sim" -- e foi através dos cantadores que achei as veredas de Deus e o Diabo nas terras de Cocorobó e Canudos.

Sou mau cantador -- sem ritmo e sem memória, fiquei por tempos a ruminar e reinventar a essência das coisas que tinha ouvido -- e um enorme romance em versos nasceu, impuro e rude, narrando o filme. Acabando o trabalho, pronta a montagem, restavam imagens neutras, mortas, que necessitavam da música para viver: eram imagens do romanceiro transcrito. Todo o episódio de "Corisco", por exemplo, nasceu das cantigas que ouvi cantar em vários lugares diferentes e, dispensada a música, perderia um significado maior.

Sérgio Ricardo, embora seja sambista com mistura de morro e asfalto, tem paixão pelo nordeste, tem a vantagem de ser cineasta e sabe que música de filme é coisa diferente: tem de ser parte da imagem, ter o ritmo da imagem, servir (servindo-se) à imagem.

Começamos o trabalho. Dei as letras -- nas quais usei muitos versos autênticos do povo -- e Sérgio começou a compor. Tinha seus vícios de "arranjos"; discutimos que o negócio tinha de ser "puro". Sérgio ouviu péssimas gravações do cego Zé e do seu primo Pedro: pegou e matutou o tom. Cortamos certos versos, fizemos outros: Sérgio deu uns palpites nas letras e eu, mau cantador, dei palpites na música. E ensaiamos pra valer na hora da gravação. Transformei Sérgio em ator -- gritei, ele ficou nervoso, deixou os preconceitos e soltou a voz e os dedos do violão. Depois de vários dias a noites a banda sonora estava gravada.

Acho que o cinema brasileiro tem, nas origens de sua linguagem, um grande compromisso com a música -- o nosso triste povo canta alegre, uma terrível alegria de tristeza. O samba de morro e a bossa nova, o romanceiro do nordeste e o samba de roda da Bahia, cantiga de pescador e Villa-Lobos -- tudo vive desta tristeza larga, deste balanço e avanço que vem do coração antes da razão.

Uma das mais belas imagens do nosso cinema é, por isso, aquela de Grande Othelo, em "Rio Zona Norte", cantando um samba de Zé-Keti. É assim que nossa música no cinema funcionará sempre como a explicação profunda da alma brasileira.

Glauber Rocha




Trilha Sonora do filme Deus e o diabo na terra do sol















quarta-feira, 1 de setembro de 2010

The Great Rock'N'Roll Swindle Soundtrack (1979)

Não existe trilha sonora como esta, nenhuma outra banda poderia chegar a tal resultado. Com todo o respeito ao meu Olímpo das bandas de rock, onde o Sex Pistols não está, nenhum componente da minha mitologia roqueira tem a descaralhação necessária para chamar Ronald Biggs, o ladrão mais famoso do mundo, para uma participação no filme e em duas faixas da trilha.
O interessante no álbum são as versões que os Pistols estavam acostumados a tocar ao vivo, as duas primeiras faixas que se enquadram nesse contexto são Johnny B. Goode (Chuck Berry) e Road Runner (Jonathan Richman, do Modern Lovers), completamente erráticas e caóticas, refletem o modo de viver da banda e daqueles que seguiam o punk. Para Substitute, do The Who, vem a primeira versão razoavelmente bem gravada e sóbria, e claro que não poderiam deixar de mandar um recado para Pete Townshend: "We don't ask permission for anything".
"C'mon Everybody" e "Rock Around The Clock" são outros dois clássicos do rock desconstruídos com toda sagacidade da banda, o último com vocais do inglês Edward Tudor-Pole, um amigo da banda. Em gravações pouco diferentes do álbum Never Mind The Bollocks, as músicas icônicas voltam em novas versões, como God Save The Queen e Anarchy In The UK. Além de faixas com o vocal de Biggs, No One Is Innocent.

Faixas:
1- God Save The Queen 2- Johnny B. Goode 3- Road Runner 4- Black Arabs 5- Anarchy In The U.K. 6- Substitute 7- Don't Give Me NoLip Child 8- (I'm Not Your) Stepping Stone 9- L'anarchie pour le U.K. 10- Belsen Was A Gas 11- Einmal Belsen War Wirflich Bortreflich (Belsen Vosa Gassa) 12- Silly Thing 13- My Way 14- I Wanna Be Me 15- Something Else 16- Rock Around The Clock 17- Lonely Boy 18- No One Is Innocent 19- C'Mon Everybody 20- EMI 21- The Great Rock 'N' Roll Swindle 22- Friggin' The Riggin' 23- You Need Hands 24- Who Killed Bambi?