quarta-feira, 26 de maio de 2010

Orquestra Contemporânea de Olinda - Orquestra Contemporânea de Olinda (2008)

Não costumo fazer postagens relacionadas em sequência, mas este caso é especial. O disco logo abaixo traz um clássico da música brasileira: "Canto da Sereia". Faixa esta, brilhantemente regravada pela sensacional Orquestra Contemporênea de Olinda (OCO), uma das grandes novidades brasileiras neste fim de década. Oswaldo Nunes deveria estar entre nós para poder colocar toda a potência de sua voz à frente da OCO.
Além da faixa de Oswaldo Nunes, "O Samba É Bom", de Zé Cobrinha; "Não Interessa Não", de Luiz Bittencourt e Zé Menezes, e muito material autoral fazem o repertório do disco de estréia dessa "big band". Formada pelo percussionista Gilú com uma tradicional formação de bandas de rock, baixo-bateria-guitarra-baixo elétrico-percussão, misturando com uma seção de metais, típica das bandas de soul, seção essa, formada por alunos do Grêmio Musical Henrique Dias, uma escola profissionalizante para música em Olinda. O som desse verdadeiro coletivo é uma sensacional mistura de ritmos afrobeat, ritmos pernambucanos e samba.
O álbum foi lançado numa das festas roNca-roNca de 2008, não me lembro exatamente da data, só que estava chovendo muito e foi uma loucura. O sucesso da banda foi tamanho, que conseguiram viajar o Brasil inteiro levando o disco na bagagem, tacando em grandes casas de espetáculos das grandes cidades e nos principais festivais do circuito brasileiro. Além do sucesso em âmbito nacional, o grupo acaba de voltar de uma turnê de sete apresentações pelos EUA, tocando em cidades como Nova Iorque, Washington e Nova Orleans.
Assim, a expectativa é grande para o próximo lançamento da banda, que, até onde consegui apurar, não tem data de lançamento. A orquestra é uma das grandes aparições neste fim de década na música brasileira.

Faixas:
Tá Falado
Canto da Sereia
Ladeira
Joga Do Peito
Brigitti
Balcão da Venda
Durante o Carnaval
Não Interessa Não
Vinheta
Saúde
Saúde II
Formação:
Gilú
Tiné
Maciel Salú
Juliano Holanda
Hugo Gila
Raphael Beltrão
Maestro Ivan Do Espírito Santo
+ rapaziada do Grêmio Henrique Dias

Orquestra Contemporânea de Olinda - Orquestra Contemporânea de Olinda


sexta-feira, 21 de maio de 2010

Oswaldo Nunes & The Pop's - Tá Tudo Aí (1969)

Homossexual, negro, sambista, malandro da Lapa e uma das figuras marcantes do lendário bloco de carnaval Bafo da Onça. Oswaldo Nunes é uma das figuras mais marcantes que já passaram pelo boêmio e, à sua época, perigoso bairro carioca. Morador do bairro, enquanto passava de emprengo a emprego, conheceu figuras como Madame Satã e vários sambistas que o levavam aos barracões das escolas de samba, onde Oswaldo começou a enveredar sua vida para o gênero musical.
Nesse LP, primeiro de sua carreira, Oswaldo traz toda sua influência do samba e junto com o The Pop's entra na alçada do rock. Vindos do bairro do Jacaré, Zona Norte do Rio de Janeiro, e hoje em dia um dos lugares mais perigosos da cidade, esse grupo instrumental acompanhou várias estrelas da Jovem-Guarda, como Erasmo Carlos e Wanderléia em apresentações ao vivo. Porém, é com Oswaldo Nunes que o grupo atinge o máximo da experimentação em sua carreira, e também, é o único artista que eles acompanharam em estúdio.
Já com dois membros originais fora da banda; J. Cesar, guitarrista, e Parada, baterista, sairam da banda em 67 e 68, respectivamente. O The Pop's gravou um disco revolucionário para o samba. Antes de Jorge Ben chegar com seu aclamadíssimo África Brasil (1976), Oswaldo Nunes colocou o samba de pernas pro ar.
Entre a imitação do som de um berimbau pelo guitarrista da banda, não sei exatamente a formação utilizada pelo The Pop's nas gravações, que abre o disco em "Tá tudo aí!" até a clássica "Canto da Sereia", o disco é recheado de ritmos como forró, baião, samba e rock'n'roll.
Mesmo na contra-capa do LP não existem informações precisas das gravações ou da formação do The Pop's. Para minha sorte, consegui garantir minha cópia desse disco revolucionário da música brasileira.

Faixas:
Lado A
01 - Tá Tudo Aí (Oswaldo Nunes)
02 - Cateretê (Arnoldo Silva / Odair José de Araújo)
03 - Outro Amor de Carnaval (Raul Borges / Oswaldo Nunes / Humberto de Carvalho)
04 - Você Deixa (Oswaldo Nunes)
05 - Guerra Santa (Ciro de Souza / Mário Rossi)
06 - Tamanqueiro (Oswaldo Nunes)
Lado B
07 - Dendeca (Oswaldo Nunes)
08 - Doce Canção (Oswaldo Nunes)
09 - Cascata (Oswaldo Nunes / A. Marcilac)
10 - Mulher de Malandro (Celso Castro / Oswaldo Nunes)
11 - Chorei Chorei (Oswaldo Nunes)
12 - Canto da Sereia (Oswaldo Nunes)
Oswaldo Nunes & The Pop's - Tá Tudo Aí


quinta-feira, 13 de maio de 2010

Cidadão Instigado - Uhuuu! (2009)

Um dos últimos programas roNca-roNca, para ser mais preciso o do dia vinte e sete de abril, trouxe o Cidadão Instigado mostrando algumas faixas de seu último disco ao vivo. É impressionante a capacidade do MV, de proporcionar momentos inesquecíveis semana após semana. Além de extremamente competentes em estúdio, como é fácil de se notar em Uhuuu!, a banda experimenta seu auge também nas apresentações. Quando estreiaram o álbum com uma apresentação no Circo Voador, o Cidadão deixou bem claro que veio para ficar como uma das mais inovadoras e inventivas bandas de sua época.
Segundo Fernando Catatau, o som que a banda mostra nas novas faixas é mais próximo ao que é apresentado durante as apresentações. A sonoridade da banda é um capítulo à parte, juntando influências como Queen, Pink Floyd, Queens of the Stone Age com o "Brega" dos anos 70, eles definem tanto a sonoridade do álbum quanto o estilo de composição. A alquimia é complicada mas o resultado é o som maduro de uma banda extremamente experiente, que sabe até onde podem ir, e podem muito.
Os temas abordados pelas letras são psicodéicas, intrigantes, assustadoras e até engraçadas. "Homem velho" traz referência à Neil Young, em alguma festa com alguma nativa, em alguma canoa. Há sempre algo oculto, difícil de perceber nas letras do Cidadão. A subjetividade já aparece na primeira faixa. Os ladrões, que Catatau quer que deixemos entrar em nossas casas e levar tudo o que puderem, nos deixam à vontade para identificá-los como o Presidente do Senado ou o policial corrupto, ou então o trocador de ônibus que rouba dez centavos do teu troco.
Apesar de não ter saído em vinil, Uhuuu! é um disco, que mesmo em CD, tem que estar na prateleira. A capa e os encartes, além da música e de toda sua qualidade, fazem do disco um item necessário fisicamente. Ainda não achei o meu, se alguém souber onde tem, diga aí nos comentários. Tudo isso pra dizer o quanto é difícil achar as pepitas dos principais nomes da nova safra de artistas da música brasileira. As lojas de disco precisam, assim como as gravadoras e a grande mídia, reservarem o espaço para a turma que está começando a escrever mais um capítulo da MPB.

Faixas:
01. O Nada
02. Contando Estrelas
03. Doido
04. Dói
05. Escolher Pra Quê
06. Como as Luzes
07. Ovelhinhas
08. A radiação na Terra
09. Deus é uma Viagem
10. Homem Velho
11. Cabeção
Banda:
Fernando Catatau (voz, guitarra e teclados)
Regis Damasceno (guitarra e violão)
Rian Batista (baixo)
Clayton Martin (bateria)

Cidadão Instigado - Uhuuu!

domingo, 9 de maio de 2010

Moacir Santos - Coisas (1965)

Não ando com muito tempo para postagens, mas eu queria muito esse disco por aqui há meses. O Jazz instrumental de Moacir toma muito tempo tanto ouvindo, não basta uma única audição, é preciso esmiuçar cada arranjo, cada acorde, cada nota, quanto escrevendo. É necessário um texto à altura das 10 Coisas de Moacir.
No texto abaixo, Ruy Castro reune todos as características acima e tantas outras, criticando o músico, a música e a relação deste álbum com as gravadoras.

"O crítico Hugo Sukman, em O Globo, achou o título perfeito para seu artigo: De volta às melhores Coisas da vida. Coisas é o disco do compositor, arranjador, maestro e instrumentista Moacir Santos, de 1965 – dez faixas intituladas simplesmente Coisas (numeradas de 1 a 10, mas fora de ordem), embora algumas tenham recebido letra e títulos com que circularam fora do disco (Coisa n.º 5, por exemplo, ficou conhecida no mundo profano como Nanã e, por muitos anos, rendeu um providencial dinheiro a seu letrista Mario Telles).
Coisas só agora volta ao lugar de onde nunca deveria ter ficado ausente: as prateleiras das lojas. E volta com uma força, uma originalidade e uma beleza que, se se disser que foi gravado ontem, ninguém terá razão para duvidar. Mas é claro que ele vem de outros tempos, de outro mundo, outro país – um país também chamado Brasil, mas onde havia uma indústria, dita fonográfica, que estranhamente trabalhava com música.
Esses 39 anos de sumiço dizem muito sobre as cabeças que presidem nossas gravadoras. Coisas foi produzido originalmente pela Forma, o pequeno e corajoso selo que o produtor carioca Roberto Quartin conseguiu sustentar durante três anos na década de 60. A Forma era uma espécie de Elenco, só que ainda mais atrevida e experimental. Vencido pelo mercado, Quartin vendeu as matrizes de seu catálogo (18 formidáveis LPs) para a então Philips, que depois se tornou a Polygram e hoje é a Universal. A poderosa compradora contentou-se em ser apenas a dona da Forma: sentou-se em cima, não fez nada com os discos e, até outro dia, não deixou que ninguém fizesse. O próprio Quartin levou as décadas seguintes tentando convencê-la a repor em circulação o catálogo completo, do qual Coisas era a jóia da coroa – sem sucesso. Quartin morreu em abril último, amargurado porque seu grande disco afinal iria sair, mas isoladamente e por iniciativa de outro selo, o MP,B, sem a sua participação. Triste para Quartin, que devia ter seus motivos para ser um homem difícil – mas, pelo menos, Coisas aí está.
Foi o último e o melhor disco de “samba-jazz” feito no Brasil daquela época: uma obra-prima de música instrumental, com raízes ardentemente brasileiras e uma certa tintura jungle, ellingtoniana, que parece brotar dessas mesmas raízes. Seria fácil dizer que, em tais raízes, está a música ancestral negra. E deve estar mesmo – mas não só: Moacir era e é um músico completo, que se abeberou de toda a tradição clássica européia, apenas fazendo-a curvar-se à sua orgulhosa negritude. (Foi o primeiro maestro negro da Rádio Nacional, furando a hegemonia – benigna – dos mestres Radamés Gnatalli, Leo Peracchi e Lyrio Panicalli.) E Coisas é o epítome da sofisticação e da modernidade que impregnavam alguns criadores daquela fase, empenhados em buscar nos ritmos populares do Nordeste e dos morros do Rio as bases para uma revitalização da música brasileira. Coisa n.º 6, por exemplo, que soa como um baião de quermesse, tornou-se Dia de Festa ao ganhar letra de Geraldo Vandré e foi gravado pelo mesmo Vandré. Nas outras faixas, misturados a improvisações jazzísticas, riffs e ataques de big band, há ecos de xaxado, coco e maracutu.
Mas, alto lá: com Moacir (assim como em Baden Powell), não tinha essa demagogia de recolher folclore – a música saída “do povo” era apenas uma plataforma para toda espécie de pesquisa melódica, harmônica ou rítmica. A prova está logo de saída, na primeira faixa (Coisa n.º 4), em que o sax-barítono e o trombone-baixo começam uma marcação pesada e repetitiva que se estende por todo o número e, em contexto mais “primitivo”, talvez fosse feita por tambores. Era a África, sem dúvida, mas filtrada pelo Beco das Garrafas, em Copacabana – por mais que isso fosse perigoso politicamente. O texto de capa do LP original, escrito por Quartin e reproduzido no encarte do CD, sentia a necessidade de enfatizar que Moacir Santos não era um músico "de direita" ou "de esquerda", mas apenas um músico, e a música desconhece a política. Era uma preocupação vigente e, hoje, pode parecer primária ou irrelevante. Mas só quem viveu o clima daquele tempo, com o Brasil ainda no começo da ditadura, consegue avaliar a intensidade da patrulha (exigiam-se "tomadas de posição") e o sentimento de culpa que se apossava dos músicos voltados somente para a arte, estigmatizados por não fazerem de cada acorde um comício.
Pois aconteceu que Moacir Santos, despolitizado como era, também teve de marchar para uma espécie de auto-exílio nos Estados Unidos. Não porque fosse “alienado” ou “participante”, mas pela brusca mudança de rumos na música brasileira a partir do iê-iê-iê, que liquidou com a possibilidade de sobrevivência no Brasil de artistas como ele. A passagem de 1965 para 1966 marcou esse corte – porque, nos três anos anteriores, o próprio Moacir nunca trabalhara tanto e estivera presente, como arranjador ou compositor, em alguns dos melhores discos lançados no país. Apenas em 1963 eram dele os arranjos de Vinicius & Odette Lara, que foi o LP n.º 1 da Elenco; de pelo menos uma faixa (Nanã, em vocalise) de Nara, o disco de estréia de Nara Leão, também na Elenco; de várias faixas de Baden Powell Swings With Jimmy Pratt, idem Elenco, em que Baden toca as Coisas n.º 1 e n.º 2; e de todos os arranjos de Elizete Interpreta Vinicius, lançado pela Copacabana, com quatro de suas canções que levaram letra de Vinicius, entre as quais Se Você Disser Que Sim e Menino Travesso, e com o seu nome em destaque na capa.
Em 1964, Moacir assinou arranjos de Você Ainda Não Ouviu Nada – pelo menos, os de Nanã e Coisa n.º 2 –, o disco de Sergio Mendes & Bossa Rio na Philips que muitos, então, consideraram o melhor do gênero feito no Brasil. Mas, no mesmo ano, esse disco seria superado pelo sensacional Edison Machado É Samba Novo, na CBS, com quatro de seus temas (Se Você Disser Que Sim, Coisa n.º 1, Menino Travesso e o já onipresente Nanã) no repertório e Moacir impregnando todo o disco com o som cheio e noturno de seus arranjos, mesmo nos de autoria do saxofonista J.T. Meirelles. O Brasil era tão outro país que permitia que uma cantora quase desconhecida – Luiza, 22 anos, professora do Colégio São Paulo, em Ipanema –, ao estrear em disco na RCA Victor, tivesse o solicitadíssimo Moacir como arranjador. (O LP, Luiza, não aconteceu, e a excelente cantora, pelo visto, encerrou ali a carreira. Mas é outro legítimo Moacir Santos, à espera de que o relancem em CD.) Nos intervalos, Moacir compôs também a música para filmes com que o cinema brasileiro (“novo” ou não) tentava atingir a maioridade: Seara Vermelha, do italiano Alberto D’Aversa (1963), e Ganga Zumba, de Carlos Diegues, Os Fuzis, de Ruy Guerra, e O Beijo, de Flavio Tambellini, todos de 1964, nos quais nasceram várias Coisas. Tudo isto, na verdade, era uma preparação para o Coisas propriamente dito – que, ao ser finalmente lançado, em 1965, logo teria de enfrentar uma atmosfera adversa à sua proposta. A Forma afundou, o disco desapareceu e, pelas quatro décadas seguintes, o LP só reapareceria ocasionalmente nos sebos – até também sumir deles e se tornar uma preciosidade de US$ 200 no mercado internacional.
O que aconteceria se a lição de Coisas (e de outros discos de seu estilo) tivesse sido disseminada em 1965? Tudo é especulação, mas é provável que a música instrumental moderna brasileira não conhecesse a penúria que atravessou nas décadas seguintes. O próprio Coisas era uma continuação das experiências nos discos menos dançantes das orquestras de Severino Araújo e Zaccarias, escolados nas gafieiras cariocas dos anos 40 e 50. Deve-se citar também o desaparecimento das orquestras de rádio, TV, boates e as das próprias gravadoras como fator decisivo para o declínio da música instrumental no Brasil – porque foram elas que permitiram a existência de um disco como Coisas. Para Moacir Santos, com 40 anos em 1966, só restava ir embora. E ele foi – para Los Angeles, onde já está há 38 anos.
A volta do disco pode completar a redescoberta brasileira de Moacir, iniciada em 2001 com o lançamento de Ouro Negro pelos mesmos produtores da nova edição de Coisas: Mario Adnet e Zé Nogueira. Ouro Negro era espetacular – mas Coisas é o produto original, com Moacir em pessoa, não apenas de caneta e batuta na mão, mas armado de seu possante sax-barítono. Hoje, aos 78, Moacir não pode mais tocar, por problemas de saúde, mas a mão que compõe e arranja é a mesma de há 40 anos."
Ruy Castro

Faixas:
1- Coisa No. 4
2- Coisa No. 10
3- Coisa No. 5
4- Coisa No. 3
5- Coisa No. 2
6- Coisa No. 9
7- Coisa No. 6
8- Coisa No. 7
9- Coisa No. 1
10- Coisa No. 8