segunda-feira, 1 de março de 2010

It Might Get Loud (À Todo Volume) 2009

It Might Get Loud


por Barney Hoskyns
traduzido e adaptado por IF
Vivemos um tempo em que o virtuosismo na guitarra é algo nostálgico e almejado. Qualquer garoto de classe média que tenha uma Stratocaster ou uma Les Paul no quarto quer ser Jimi Hendrix ou Kurt Cobain, nem que seja no Guitar Hero. Assistindo à "It Might Get Loud" - o interessantíssimo filme de David Guggenheim sobre o encontro, em janeiro de 2008, entre 3 guitarristas - faz você perceber o quão comum e inocente nossos sonhos de tornar-se um músico são. Em seus distintos caminhos, Jimmy Page, The Edge e Jack White tiveram que batalhar muito nos primeiros anos de obsessão e aprendizado para chegar a algum lugar. Os garotos prodígio dos jogos eletrônicos de hoje, tem muita o que aprender com as memórias e pensamentos dos três guitarristas. Lançado em DVD após uma curta passagem pelo circuito comercial, It Might Get Loud é sobre como a guitarra elétrica e o amplificador, combinados, criam um tipo de super poder, transformando o músico num deus do som. Começando com uma longa tomada mostrando Jack White construindo uma guitarra elétrica com uma corda, um pedaço de pau e um captador no quintal de sua casa, no Tennessee, o filme volta no tempo para remontar de forma rápida a história do Led Zeppelin, do U2 e do White Stripes, mostrando momentos marcantes de cada um dos três guitarristas abordados. Apesar de um ou dois cortes abruptos, por exemplo quando The Edge está falando sobre os Troubles, quando há um corte inexplicável para Page relembrando quando ele demitiu-se do lucrativo posto de músico de estúdio. Enquanto White como um herdeiro da magia do Blues do pródigo James Patrick Page, The Edge como um homem único, que não tem o espírito sujo do Blues e vive cercado pela sua parafernália eletrônica. Mas o contraste de sua devoção pela tecnologia de ponta e a relativa simplicidade de Page e White de fato faz do filme mais que um simples documentário sobre guitarras. White usa o filme como plataforma para criticar o uso excessivo, mas confessa, a caminho de encontrar com os outros dois guitarristas, que pretende enganá-los para descobrir todos os segredos possíveis. Entretanto muitos não gostem do U2, é difícil argumentar contra a magenstade de The Edge na guitarra. O momento mais intenso do filme talvez seja quando há a passagem do som de um fita-demo do álbum Joshua Tree para a versão ao vivo, num estádio lotado, de "Where The Streets Have No Name".
Num ponto, The Edge começa a falar sobre riffs (aqueles acordes que se repetem durante a música) e sons que "invocam algum lugar", e Guggenheim leva nosso augustotrio para lugares marcantes em suas produções musicais: Page volta a Headley, num carro preto. Jack White vai ao sudeste de Detroit e Edge volta para a Dublin que o U2 começou a carreira. Ocorrem maravilhosos momentos de reconexão com velhas influências: White ouvindo um "sagrado" Lp do Son House, Page, feliz da vida, ouvindo um compacto da música "Rumble" do Link Wray. Há também uma vasta filmagem dos Strips tocando músicas do Flat Duo Jets e o precioso filme caseiro com cenas do Zeppelin tocando no jardim da mansão em Headley Grange.
Ao longo do filme, há um bate papobem descontraído entre os três guitarristas num estúdio em Los Angeles e no meio de tudo isso, uma levada de "Dead leaves and the dirty gounds" e da agourenta "In my time of dying", música tradicional do Blues do Delta do Mississipi que, em 1976, ganhou uma versão assinada pelo Zeppelin, com direito a introdução de uma guitarra em slide que vai fundo na alma. Apesar de White ser o comandante do show - como único "frontman" entre os três, isso já era de se esperar - ele tem uma atitude totalmente desrespeitosa, sem mencionar sua expressão facial quando Jimmy Page toca a introdução de "Whole Lotta Love" em sua Gibson Les Paul. Lembrando um ancião oriental, o ritmo de Page ficou confuso, mas o sentimento ainda está lá. "Se eu carrego isso ou isso me carrega, eu não sei", ele diz sobre o desejo de transformar-se através da combinação guitarra e amplificador. "O júriestá por aí. Mas eu não ligo, eu aproveitei muito tudo. É isso."
Em certos momentos, It Might Get Loud torna-se um dos mais densos e importantes documentários da BBC 4 - a união da pose do rock-progressivo com a rebeldia do punk, por exemplo - mas no fundo, o filme é um estudo razoavelmente profundo sobre guitarristas, e guittaras como uma paixão compartilhada. Escutando White em sua varanda, fazendo uma guitarra gritar e exalando emoção daquele pedaço de madeira, faz você perceber como as coisas velhas tem sua valor.








Texto original no site da UNCUT, aqui.

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