quinta-feira, 18 de março de 2010

Charlotte Gainsbourg - IRM (2009)

Aos 45 do segundo tempo de 2009, veio à luz um dos melhores discos do ano e, talvez, um dos melhores da década de uma cantora. IRM era o que faltava para consolidar a carreira musical dessa cantora que, desde o berço, faz parte da realeza da música francesa. Além disso, coroou um ano espetacular para Charlotte, vencedora do prêmio de melhor atriz do festival de Cannes, por sua atuação em Anti-Cristo.
O álbum é uma parceria com Beck, que produziu e compôs todas as faixas e ainda participa cantando em "Heaven Can Wait" que é, talvez, a principal música do álbum. Mas não é tão óbvio assim, IRM veio logo após um acidente grave, que a levou para a mesa de cirurgia, e não obstante, no decorrer da recuperação, ela achava que poderia morrer a qualquer momento. Só tirou essa idéia da cabeça quando viu o resultado de várias RMI (sigla em inglês para Exame de Ressonância Magnética). As outras faixas são viagens poéticas e melódicas altamente inspiradas na obra de Serge Gainsbourg, um dos maiores ícones da música francesa, principamente no disco "Gainsbourg Percussions" de 1964.
A parceria prova-se bem sucedida a cada faixa, Beck dá o tom e Charlotte encaixa com maestria e suavidade sua voz, tanto nas músicas em francês, como em "Le Chat du Café des Artistes", do canadense Jean-Pierre Ferland, quanto nas canções em inglês, maioria no álbum, com destaque para " Trick Pony" e " Heaven Can Wait".
Por enquanto, esse é o auge artístico na vida de Charlotte, tanto na música quanto no cinema, o que torna seus trabalhos recentes tremendamente interessantes e elogiáveis.
01. Master's Hands
02. IRM
03. Le Chat du Café des Artistes
04. In the End
05. Heaven Can Wait
06. Me and Jane Doe
07. Vanities
08. Time of the Assassins
09. Trick Pony
10. Greenwich Mean Time
11. Dandelion
12. Voyage
13. La Collectionneuse





sexta-feira, 12 de março de 2010

Jefferson Airplane - Surrealistic Pillow (1967)

O Jefferson Airplane é produto direto da onda de ácido que varreu São Francisco apartir de 1964. Logo, este álbum, Surrealistic Pillow, o principal na discografia da banda, não é diferente. Sem ele o "Verão do Amor" não seria o mesmo, duas de suas faixas são hinos daquela lisérgica geração. "Somebody To Love" e "White Habit" são canções atemporais, que guiaram a viagem de muitos jovens daquela época através dos incertos caminhos do LSD.
Logo após o lançamento do primeiro álbum da banda, em 1966, o baterista Alexander Skip Spence saiu da banda para se juntar ao Moby Grape; e em 1969, lançar o brilhante Oar, disco solo. As mudanças continuaram na formação do grupo. Ainda saiu a vocalista Signe Toly Anderson para a entrada marcante de Grace Slick. Spencer Dryden substituiu Skip Spence na bateria.
Essas mudanças tiveram grande influência no som que a banda mostraria dali pra frente. A fusão entre o folk, de melodias suaves e letras politizadas, com a desbunde, guitarras cheias de efeitos novos e o vocal estridente do rock psicodélico chegou na hora certa. A banda foi uma das pioneiras nessa fusão e passou para um seleto grupo de bandas e artistas de sua época, justamente pela revolução sonora da qual ajudou a criar.
"My Best Friend" é a única composição de Skip Spence no álbum, gravada e inserida no disco como uma homenagem. "Today" e "How do You Fell?" são outras faixas de destaque num álbum que é fácil determinar os pontos altos mas é difícil saber o quão perto outras canções estão dele.
Dizem que 1967 é o ano da psicodelia, um ano de ouro no rock, e Surrealistic Pillow é uma das pérolas dessa coroa.
Faixas:
1.She Has Funny Cars - 3:13
2.Somebody to Love - 3:01
3.My Best Friend - 3:04
4.Today - 3:02
5.Comin' Back to Me - 5:24
6.3/5 of a Mile in 10 Seconds - 3:45
7.D.C.B.A. -25 - 2:39
8.How Do You Feel - 3:34
9.Embryonic Journey - 1:55
10.White Rabbit - 2:33
11.Plastic Fantastic Lover - 2:40
Formação:
Marty Balinvocals, guitar
Grace Slick – vocals, piano, organ, recorder
Paul Kantnerrhythm guitar, vocals
Jorma Kaukonenlead guitar, rhythm guitar, vocals
Jack Casadybass, fuzz bass, rhythm guitar
Spencer Drydendrums, percussion

Jefferson Airplane - Surrealistic Pillow




segunda-feira, 1 de março de 2010

It Might Get Loud (À Todo Volume) 2009

It Might Get Loud


por Barney Hoskyns
traduzido e adaptado por IF
Vivemos um tempo em que o virtuosismo na guitarra é algo nostálgico e almejado. Qualquer garoto de classe média que tenha uma Stratocaster ou uma Les Paul no quarto quer ser Jimi Hendrix ou Kurt Cobain, nem que seja no Guitar Hero. Assistindo à "It Might Get Loud" - o interessantíssimo filme de David Guggenheim sobre o encontro, em janeiro de 2008, entre 3 guitarristas - faz você perceber o quão comum e inocente nossos sonhos de tornar-se um músico são. Em seus distintos caminhos, Jimmy Page, The Edge e Jack White tiveram que batalhar muito nos primeiros anos de obsessão e aprendizado para chegar a algum lugar. Os garotos prodígio dos jogos eletrônicos de hoje, tem muita o que aprender com as memórias e pensamentos dos três guitarristas. Lançado em DVD após uma curta passagem pelo circuito comercial, It Might Get Loud é sobre como a guitarra elétrica e o amplificador, combinados, criam um tipo de super poder, transformando o músico num deus do som. Começando com uma longa tomada mostrando Jack White construindo uma guitarra elétrica com uma corda, um pedaço de pau e um captador no quintal de sua casa, no Tennessee, o filme volta no tempo para remontar de forma rápida a história do Led Zeppelin, do U2 e do White Stripes, mostrando momentos marcantes de cada um dos três guitarristas abordados. Apesar de um ou dois cortes abruptos, por exemplo quando The Edge está falando sobre os Troubles, quando há um corte inexplicável para Page relembrando quando ele demitiu-se do lucrativo posto de músico de estúdio. Enquanto White como um herdeiro da magia do Blues do pródigo James Patrick Page, The Edge como um homem único, que não tem o espírito sujo do Blues e vive cercado pela sua parafernália eletrônica. Mas o contraste de sua devoção pela tecnologia de ponta e a relativa simplicidade de Page e White de fato faz do filme mais que um simples documentário sobre guitarras. White usa o filme como plataforma para criticar o uso excessivo, mas confessa, a caminho de encontrar com os outros dois guitarristas, que pretende enganá-los para descobrir todos os segredos possíveis. Entretanto muitos não gostem do U2, é difícil argumentar contra a magenstade de The Edge na guitarra. O momento mais intenso do filme talvez seja quando há a passagem do som de um fita-demo do álbum Joshua Tree para a versão ao vivo, num estádio lotado, de "Where The Streets Have No Name".
Num ponto, The Edge começa a falar sobre riffs (aqueles acordes que se repetem durante a música) e sons que "invocam algum lugar", e Guggenheim leva nosso augustotrio para lugares marcantes em suas produções musicais: Page volta a Headley, num carro preto. Jack White vai ao sudeste de Detroit e Edge volta para a Dublin que o U2 começou a carreira. Ocorrem maravilhosos momentos de reconexão com velhas influências: White ouvindo um "sagrado" Lp do Son House, Page, feliz da vida, ouvindo um compacto da música "Rumble" do Link Wray. Há também uma vasta filmagem dos Strips tocando músicas do Flat Duo Jets e o precioso filme caseiro com cenas do Zeppelin tocando no jardim da mansão em Headley Grange.
Ao longo do filme, há um bate papobem descontraído entre os três guitarristas num estúdio em Los Angeles e no meio de tudo isso, uma levada de "Dead leaves and the dirty gounds" e da agourenta "In my time of dying", música tradicional do Blues do Delta do Mississipi que, em 1976, ganhou uma versão assinada pelo Zeppelin, com direito a introdução de uma guitarra em slide que vai fundo na alma. Apesar de White ser o comandante do show - como único "frontman" entre os três, isso já era de se esperar - ele tem uma atitude totalmente desrespeitosa, sem mencionar sua expressão facial quando Jimmy Page toca a introdução de "Whole Lotta Love" em sua Gibson Les Paul. Lembrando um ancião oriental, o ritmo de Page ficou confuso, mas o sentimento ainda está lá. "Se eu carrego isso ou isso me carrega, eu não sei", ele diz sobre o desejo de transformar-se através da combinação guitarra e amplificador. "O júriestá por aí. Mas eu não ligo, eu aproveitei muito tudo. É isso."
Em certos momentos, It Might Get Loud torna-se um dos mais densos e importantes documentários da BBC 4 - a união da pose do rock-progressivo com a rebeldia do punk, por exemplo - mas no fundo, o filme é um estudo razoavelmente profundo sobre guitarristas, e guittaras como uma paixão compartilhada. Escutando White em sua varanda, fazendo uma guitarra gritar e exalando emoção daquele pedaço de madeira, faz você perceber como as coisas velhas tem sua valor.








Texto original no site da UNCUT, aqui.