terça-feira, 26 de janeiro de 2010

The Who - A Quick One (1966)

O segundo disco do Who é tão importante quanto o primeiro, My Generation (1965), mas por motivos diferentes. Neste acetato, a banda começa a se libertar do R&B, que caracteriza o primeiro disco, e também começa a demonstrar que há vida fora do movimento Mod, no qual o Who consolidou-se, que já estava caminhando para o fim.
Numa ação de marketing, cada membro da banda teria que compor 2 músicas. Keith Moon fez "I Need You", na qual além da bateria, ele também faz a voz principal. A segunda composição de Moon é a instrumenal, praticamente um solo de bateria, "Cobwebs and Strange". John Entwistle contribuiu com a clássica "Boris, the Spider" e "Whiskey Man". Enquanto Daltrey só compôs "See My Way", Townshend fez outras 4 canções, dominando as composições do disco, elas são "Run, run, run", que abre o disco, "Don't Look Way", a inspirada e linda canção "So sad About Us" e a faixa-título "A Quick One, While He's Away". O disco fecha em 10 faixas com a versão de "Heat Wave", música composta pelo trio HDH.
Na faixa-título está a principal razão para este disco ser tão importante, a primeira tentativa de compor e gravar uma ópera-rock. O sucesso da música, que conta a história de um triângulo amoroso, levou a banda a tentar voos ainda maiores e consagrou-os quando em 1969, gravaram Tommy e em 1973, o épico Quadrophenia. A Quick One é um disco seminal na carreira do who e na história do rock, e mais de 40 anos após seu lançamento continua subestimado.


Banda:
Keith Moon
Roger Daltrey
John Entwistle
Pete Townshend

Faixas:
Run Run Run
Boris The Spider
I Need You
Whiskey Man
(Love Is Like A) Heat Wave
Cobwebs And Strange
Don't Look Away
See My Way
So Sad About Us
Quick One, While He's Away


The Who - A Quick One


segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Céu - Vagarosa (2009)

2010 começa por aqui num ritmo tão vagaroso quanto ao da Céu em seu segundo disco, um dos melhores da nova safra da música brasileira em 2009. Um dos meus arrependimentos musicais em 2009 foi não ter acompanhado de mais perto a evolução espetacular que esses artistas tiveram. Além da Céu, 2009 foi um ano importantíssimo para bandas como Cidadão Instigado, Lucas Santtana, Romulo Fróes, Móveis Coloniais de Acaju, Do Amor, Lê Almeida, Wado e tantos outros que se destacaram.
"Céu sorri. Preguiçosa, estica-se pequena num cenário de graves quentes, timbres analógicos e percussão minimalista. Efeitos sonoros (o crepitar do vinil, um lento scratch) e teclados elétricos da idade da pedra ajudam a desenhar uma paisagem descrita em câmera lenta. Envolta na névoa branca da psicodelia jamaicana, ela, no entanto, não é uma Alice recém-chegada no país das maravilhas do dub. Pelo contrário - pela cor amarela das pontas dos dedos das faixas de Vagarosa dá pra perceber que ela mesma é a patroa, a própria Lagarta fumando em seu narguilé, enquanto recosta-se sobre seu sofá-pufe em forma de cogumelo. Ela é nativa.
Embora não pareça. O sorriso estampado na capa do primeiro disco foi bookmarcado pela Apple e ajudou a vender a loja de MP3 de Steve Jobs como uma de suas artistas favoritas, quase sempre apresentada junto de seus produtos como exemplo da pluralidade da empresa. Seu sempre referido berço musical (”filha do maestro Edgar Poças, o criador da Turma do Balão Mágico, começou cedo no meio artístico”, todas as matérias irão dizer) também a coloca como refém de uma inevitável carreira musical, quando, na verdade, muitos dos méritos são seus.
Vagarosa, seu segundo álbum, começa com um pequeno prelúdio em samba (”Sobre o Amor e Seu Trabalho Silencioso”) tocado apenas ao cavaco e disfarça na largada, mas reforça seu mote logo na primeira frase: “Vai pegar como bocejo”. É a primeira de uma série de metáforas que reforçam, no decorrer do disco, seu clima lento e sossegado - e também é mesma conclusão do refrão da primeira música de fato: a irresistível “Cangote”, que instaura a vibe de sauna canabista que impregna as paredes do álbum, que esparrama-se e rola por sobre timbres cirurgicamente aquecidos pelos produtores Beto Villares e Gustavo Lenza que, ao lado da cantora, recepcionam nada menos que a fina flor da música brasileira atual.
Por Vagarosa passam luminares da primeira década do século no país: Fernando Catatau, BNegão, os Sebozos Postiços (Lucio, Pupilo e Dengue), os teclados de Bactéria (Mundo Livre S/A) e Chiquinho (Mombojó), os sussurros de Thalma de Freitas e Anelis Assumpção, Curumin e Guizado, além do veterano baterista Gigante Brazil e do highlander Luiz Melodia, único responsável por tirar o disco do clima esfumaçado do Sumaré e trazê-lo para o samba de alguma das duas Lapas - a paulista ou a carioca -, na deliciosa “Vira Lata”.
Mas entre tantos convidados ilustres, Céu ainda é a patroa. Como no primeiro disco, o novo também funciona na medida de sua voz - por vezes inflexível e hipnótica (”Papa”, “Sonâmbulo”, “Nascente”, “Ponteiro”), por outras sedutora e caliente (”Cordão da Insônia”, “Grains de Beaute”, “Bubuia”). Ela equilibra timbres e músicos com sua batuta vocal e a pós-produção só salienta ainda mais sua presença musical, tratando arranjos de cordas e de metais, convidados e instrumentos como samples vivos. Vagarosa é um disco quase gêmeo de 3 Sessions in a Greenhouse, de Lucas Santtana, mas enquanto Lucas convidava o ouvinte para entrar no universo dub em pleno estúdio, Céu deixa seu espectador do outro lado do vidro, transformando-se - e a todos em seu disco - num animal de zoológico, encarcerada como atração turística. Questão de ponto de vista: do lado de lá, ela está livre em sua nação de sons e sonhos, cantando para ouvintes encarcerados do outro lado do vidro. Ao pegar carona com o dub, Céu deixa os clichês de MPB anos-luzes no passado e livra-se de toda uma herança secular brasileira (o compromisso com o samba é assumido de forma quase didática, através da participação de Melodia e pelo cover de Jorge Ben com os Sebosos Postiços, em “Rosa Menina Rosa”) para abraçar uma sonoridade mais próxima de nossos dias do que os dos ídolos de nossos pais, que ainda teimam em dar a benção para quem quer se aventurar nesse métier. Céu nem olha pros lados, chama os amigos, mira pra frente - e vai embora. Sorte nossa."
O texto entre áspas é d'O Esquema.

Faixas:
01 Sobre o Amor e seu Trabalho Silencioso (Céu)
02 Cangote (Céu)
03 Comadi (Céu-Beto Villares)
04 Bubuia (Céu-Anelis Assumpção-Thalma de Freitas), com Anelis Assumpção e Thalma de Freitas
05 Nascente (Céu-Siba)
06 Grains de Beaute (Céu-Beto Villares)
07 Vira Lata (Céu), com Luiz Melodia
08 Papa (Céu)
09 Ponteiro (Céu)
10 Cordão da Insônia (Céu-Beto Villares)
11 Rosa Menina Rosa (Jorge Ben), com Los Sebozos Postizos
12 Sonâmbulo (Céu-Serginho Machado-Bruno Buarque-Lucas Martins-Dj Marco-Guilherme Ribeiro)
13 Espaçonave (Céu-Fernando Catatau), com Beto Villares
Céu - Vagarosa