segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Tropicália ou Panis Et Circenses (1968)

Hoje eu finalmente entendi o Tropicalismo do ponto de vista cultural, porque do musical eu já tinha entendido antes. O Tropicalismo é o mais importante e talvez o único movimento de contra-cultura brasileiro, e por ser um movimento desse tipo não foi devidamente entendido e difundido em sua época. O Brasil vivia dias em que as pessoas levavam todas as discussões políticas, culturais, comportamentais ao extremo: ou você era a favor do governo e demonstrava isso de uma maneira estabelecida ou era contra e também demonstrava isso de uma maneira igual. Não existia espaço para o meio termo, ou seja, não havia lugar para o Tropicalismo. Finalmente compreendi porque Caetano e Gil foram presos e exilados. Artistas como Chico Buarque, Geraldo Vandré e outros que criticavam a ditadura de forma mais aberta e veemente, não foram tão perseguidos e censurados quanto Caetano e Gil, os principais porta-vozes do movimento tropicalista. Os militares viam na Tropicália um movimento perigoso pelo fato de representarem uma contra-cultura, uma libertação do contrato-social tradicional estipulado pela sociedade. Eles representavam uma ameaça maior para o sistema vigente na época, que os artistas mais incisivos nas críticas. Além do fato, que a ditadura não queria passar uma imagem repressora até o AI-5, por isso não ia atrás de gente como Vandré e Buarque, o alarde seria muito maior. Mas com Gil e Caetano, eles foram implacáveis, prendendo-os e depois exilando-os na Europa.
Por outro lado, a esquerda e a juventude brasileira da época, não aceitava nenhuma manifestação de pessoas tidas como contrárias à ditadura que não fossem críticas severas, abertas e diretas. Esse é o motivo que eu encotrei para justificar a famosa vaia recebida por Caetano Veloso no FIC de 1968.
Musicalmente, o disco é um resumo do que o movimento propunha. A beleza e a suavidade da Bossa-nova era representada por Nara Leão; O poder, a vibração e a energia do Rock vinha com Os Mutantes. Gal Costa empresta sua voz e interpretação inconfundíveis e inigualáveis. Tom Zé era o sujeito que não entendia nada de música e que era tão genial quanto os outros graças às letras e melodias precisas. Caetano e Gil eram duas das cabeças mais privilegiadas do movimento, com letras e arranjos fantásticos. Torquato Neto era o braço poético do grupo, enquanto o maestro Rogério Duprat trazia sua formação clássica para subverter tanto a música clássica quanto a música popular nos arranjos que se tornaram um marco na história da música brasileira. O disco resume o estilo musical que o movimento propôs, a mistura de vários estilos típicamente brasileiros. Seja da Bahia, do Rio de Janeiro, de São Paulo ou do Rio Grande do Sul: a Tropicália une o Brasil e propõe que essa união poderia tornar-se a nova cultura brasileira. Por isso era um movimento de contra-cultura, e também por isso não foi entendida pela juventude da época e logo vista como uma grande ameaça aos olhos dos governantes golpistas. A Tropicália está 40 anos atrás e 40 anos à frente.

Faixas:
1. "Miserere Nóbis" - Gilberto Gil
2. "Coracão Materno" - Caetano Veloso
3. "Panis et Circenses" - Os Mutantes
4. "Lindonéia" - Nara Leão
5. "Parque Industrial" - Gilberto Gil/Caetano Veloso/Gal Costa
6. "Geléia Geral" - Gilberto Gil
7. "Baby" - Gal Costa/Caetano Veloso
8. "Três Caravelas" - Caetano Veloso/Gilberto Gil
9. "Enquanto Seu Lobo Nao Vem" - Caetano Veloso
10. "Mamãe, Coragem" - Gal Costa
11. "Bat Macumba" - Gilberto Gil
12. "Hindo Do Senhor Do Bonfim" - Caetano Veloso/Gilberto Gil/Gal Costa





2 comentários:

Danton K disse...

Na foto da capa Rogério Duprat está levando um penico à boca.

ZARREF disse...

Aham, vc repare que ele, com a outra mão, segura um prato. Acho que é alguma brincadeira com o hábito de tomar chá, talvez dando uma sacaneada nos ingleses.