quinta-feira, 23 de abril de 2009

The Wonderful Radio London (1964-1967)

Na década de sessenta, existiam várias rádios piratas em Londres que levavam seu sinal para o reino Unido inteiro, além de outros países da Europa. Até então, nada demais, existiam e existem várias rádios piratas no mundo inteiro falando de todo tipo de coisa.
Mas essas rádios piratas inglesas nos 60 eram realmente diferentes. Haja vista que eram transmitidas de barcos espalhados pela costa da Inglaterra, vários navios já eram ferro velho da segunda guerra mundial. O fato da programação ser voltada para a juventude, revolucionou a forma de se fazer rádio na Inglaterra e foi fator determinante para a aceitação e sucesso que essas rádios obtiveram naquela época.

Não sei exatamente quantas eram, mas haviam várias rádios piratas ao longo do dial inglês, algumas até com duas estações e transmitindo de dois barcos. As rádios atraiam anunciantes nacionais e estrangeiros, tornou-se um negócio lucrativo. O impressionante é que no meio dessa loucura toda, uma delas se destacou. A Radio London chegou a ter mais audiência do que todas as outras rádios piratas juntas, desbancava a BBC em todos os horários nobres e certamente incomodava muito certas pessoas por causa disso.Os estúdios e transmissores da rádio eram situados no MV Galaxy, um návio da marinha americana que foi usado em batalhas da segunda guerra. A Wonderful Radio London ou Radio London, também conhecida como Big L, esteve no ar de 16 de dezembro de 1964 até 14 de agosto de 1967. O cidadão que levou a idéia à prática foi Don Pierson, um americano do Texas, que em 1964 leu no jornal sobre duas rádios que transmitiam por 24 horas de barcos na costa inglesa. Depois disso, pegou o primeiro voo para Londres e tratou de viabilizar sua empreitada. Apesar de todas as rádios terem registro como empresa de capital particular, nenhuma delas conseguiu o direito de usar o sinal aberto, que é concedido pelo governo britânico, por motivos desconhecidos. Logo de cara, a rádio caiu no gosto dos jovens, pois tocava as principais novidades do rock'n'roll e do blues numa linguagem mais liberal, sem as formalidades e etiqueta da BBC.




Na turnê dos Beatles pelos EUA em 1966, alguns poucos jornalistas ingleses os acompanharam a fim de cobrir a estada dos "Fab 4" na terra do tio Sam. Um deles foi Kenny Everett, um dos mais importantes disk-jockey da rádio. Nesse período, a companhia telefonica cortou todas as comunicações por telefone para os navios em que as rádios eram transmitidas. Era nescessário que Everett ligasse dos EUA para os escritórios da empresa que gerenciava a rádio em Essex para que a ligação fosse gravada em fita K-7 para ser levada ao navio e aí sim entrar no ar.
Uma verdadeira operação de guerra. Nesse episódio, é notório a importância que essas rádios tinham, já que só 3 jornalistas foram convidados para acompanhar a banda. Todos foram em nome de suas rádios piratas. Além de Kenny pela Radio London, Jerry Leighton da Radio Carolina e Ron O'Quinn da Swimming Radio England também acompanharam a turnê.
A Radio London foi a primeira a tocar Sgt. Peppers Lonely Heart Club Band na íntegra, pouco menos de 1 mês antes de seu lançamento oficial.

(Na imagem, a programação da rádio em fevereiro de 66)
Após muita pressão do governo inglês, que inclusive aprovou uma lei considerando crime toda e qualquer ação que fornecesse combustível, equipamento, patrocínio, discos ou gravações para qualquer rádio pirata na costa inglesa, os diretores da rádio decidiram fechá-la antes que essa lei entrasse em vigor.
Às 3 da madrugadado dia 14 de agosto de 1967, quando os ponteiros do relógio formam a figura de um L, a Radio London encerrou suas atividades. A última hora de programação foi dedicada às músicas que mais tocaram na rádio durante os quase 3 anos de vida e mensagens de apoio de astros da música britânica como Mick Jagger, Ringo Starr, Cliff Richard e Dusty Springfield. A última música da rádio foi A Day In The Life, dos Beatles. A rádio falava para 12 milhões de britânicos e mais 4 milhões de pessoas espalhadas pela Europa, uma audiência expressiva para uma rádio pirata.











Nos vídeos acima, podemos ter uma boa noção de como era a locução e as músicas que tocavam na programação da rádio.
Os disck-jockeys eram: Chuck Blair; Tony Blackburn; Pete Brady; Tony Brandon; Dave Cash, Ian Damon; Chris Denning; Dave Dennis; Pete Drummond; John Edward; Kenny Everett, Garner Ted e Herbert W. Armstrong. Ainda, Graham Gill; Bill Hearne; Duncan Johnson; Paul Kaye, Lorne King; "Marshall" Mike Lennox; John Peel (The Perfumed Garden Show). Earl Richmond; Mark Roman; John Sedd; Keith Skues; Ed "Stewpot" Stewart; Norman St. John; Tommy Vance; Richard Warner; Willy Walker; Alan West; Tony Windsor e John Yorke.


Quando a equipe desembarcou no porto londrino, haviam centenas de fãs aguardando usando broches como este acima e portando cartazes com frases como: "Freedom died with Radio London". Os Dj's da rádio viraram figuras tão importantes quanto os músicos.

Wonderful Radio London foi inspiração para (e tave alguns de seus jingles usados) o álbum The Who Sell Out. A rádio também é citada no filme Quadrophenia.


Um dos últimos a integrar a equipe da Radio London, John Peel comandou o "The Perfumed Garden Show" entre março e agosto de 1967. Apresentando as principais novidades do blues, rock progressivo e psicodélico inglês e estadunidenense, ele tinha a principal audiência da rádio. O programa ia ao ar diariamente no horário de meia-noite até as 2 da madrugada. Após o encerramento das atividades da Radio London, ele foi um dos contratados pela BBC para iniciar a Radio 1, voltada para a juventude, que estava sendo preterida até então. Na Radio 1, John Peel trabalhou até sua morte em 2004, tornando-se o principal incentivador, divulgador e entusiasta da música popular inglesa. É com toda a certeza o principal DJ inglês de todos os tempos.



Chegada dos DJs da Radio London no porto de Essex.

Nas duas fotos acima, milhares de pessoas se expremem para dar as boas vindas aos DJ's da Radio London.

Faixas de protesto contra o governo inglês pelo fechamento da Radio London.
Ian Damon dando autógrafos no desembarque me Londres.
Para encerrar, talvez podemos comparar às rádios piratas inglesas da década de 60, em sua atitude e motivação, aos blogs que desponibilizam links para download de músicas e discos completos. A motivação tanto dos blogueiros desta área quanto dos DJ's da Radio London era de transmitir a outras pessoas o prazer de ouvir música, sem tirar nenhuma vantagem ou gozar de privilégio algum para isso. Ou seja, a música pela música! Esses caras com certeza são inspirações para qualquer um que ama música.

2 comentários:

Charles disse...

Cara que matéria maravilhosa! Que história fantástica, já tinha escutado um pouco dessa história no Programa Ronca Ronca e agora lendo os detalhes fiquei impressionado com a ousadia, senso desafiador e paixão nas ondas do rádio. Não é a toa que virou filme. Só espero que tenha a mesma ousadia e paixão da história original. Parabéns pelo post.

:: Fräulein :: disse...

Foda o post! História fantástica! Quase chorei aqui, hehehe.
Parabéns cara! abç,